sexta-feira, 31 de julho de 2026

O Sonho dos Caixões

 


João sonhou.

Não era um sonho de sombras ou de monstros. Era apenas uma interminável procissão de caixões. Centenas deles avançavam lentamente, conduzidos por um silêncio tão profundo que parecia mais eloquente do que qualquer oração.

Durante a vida, aqueles caixões haviam permanecido invisíveis, escondidos atrás das vaidades humanas. Seus ocupantes viviam separados por muros de orgulho, cercas de ressentimento e abismos de inveja. Cada qual acreditava possuir razões suficientes para cultivar distâncias, alimentar pequenas crueldades e colecionar desafetos.

Mas, no sonho de João, todos seguiam para o mesmo cemitério.

Ali já não havia títulos, fortunas, heranças, sobrenomes ou vitórias. Os caixões, alinhados uns ao lado dos outros, eram a mais perfeita demonstração da igualdade. A morte reunia aqueles que a vida insistira em separar.

João caminhava entre as sepulturas e, em cada uma delas, parecia ouvir uma história interrompida por um orgulho inútil. Havia antigos amigos que trocaram décadas de convivência por um único desentendimento. Havia irmãos que jamais reconstruíram a ponte derrubada por palavras e gestos impensados. Havia irmãs que dividiram o mesmo colo materno, mas permitiram que a mesquinhez lhes roubasse a ternura.

Nenhum daqueles caixões guardava vencedores.

Guardavam apenas pessoas que partiram levando consigo a pesada ilusão de que tinham tempo de sobra para reconciliar-se. O relógio, porém, jamais faz promessas.

Quando João despertou, constatou que os cemitérios não são apenas cidades dos mortos. São bibliotecas silenciosas das oportunidades perdidas. Sob a terra repousam homens e mulheres que descobriram tarde demais que o orgulho nunca consola, a inveja nunca alimenta e a mesquinhez jamais constrói um lar.

A mais dolorosa das lápides é aquela que não registra um nome, mas uma sentença invisível:

"Aqui jaz alguém que teve todas as oportunidades para amar e escolheu conservar suas pequenas misérias ."

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