Na memória afetiva de Maria Apparecida Dutra, a história não é feita apenas de datas e documentos, mas de vozes que ecoam no tempo. Historiadora de Bom Jesus, ela aprendeu desde cedo que o passado também se guarda no coração, e foi assim que eternizou a figura do Antônio Francisco de Mello, o Padre Açoriano que marcou gerações.
Batizada por ele em 20 de janeiro de 1931, recebeu também de suas mãos a Primeira Eucaristia, em 29 de junho de 1941. Esses ritos, que para muitos são apenas marcos religiosos, para Maria Apparecida tornaram-se marcos biográficos. A vida espiritual e a formação intelectual caminharam juntas sob a presença serena e firme do sacerdote.
Entre 1941 e 1945, nos corredores do antigo primário e ginásio do Colégio Rio Branco, a figura do padre era constante. Participava das reuniões do Grêmio Estudantil, incentivava os jovens, aceitava homenagens com modéstia e, sobretudo, estimulava o pensamento. Quando o latim parecia indecifrável e as tarefas se tornavam áridas, algumas alunas recorriam a ele, e encontravam não apenas explicações, mas estímulo.
Nas comemorações cívicas do município, lá estava o Padre Mello. Aplaudia com entusiasmo, exaltava a pátria, lembrando que fé e cidadania podiam caminhar lado a lado. Sua presença era também habitual na Farmácia Normal, ponto de encontro da cidade. Entre dois bancos confortáveis, onde fregueses discutiam política e literatura, ele trocava ideias com Antônio Dutra, pai de Maria Apparecida, e com os amigos que faziam daquele espaço uma pequena ágora sertaneja.
Mas o que mais permaneceu foi a voz.
As pregações do padre eram eloquentes, cheias de cadência e convicção. Décadas depois, a historiadora ainda podia ouvir, com nitidez, a frase bíblica ressoando na nave da igreja e na memória:
"Dai a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus."
Ao registrar essas recordações, Maria Apparecida não apenas homenageou um sacerdote; preservou uma época. Sua escrita transforma lembranças em patrimônio, e o padre, antes figura cotidiana nas ruas de Bom Jesus, torna-se personagem da história local, não como estátua, mas como presença viva na lembrança de quem aprendeu, desde cedo, que a história também é feita de gratidão.

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