O Gigante de Filigrana e Vento
Bom Jesus do Itabapoana sempre teve o ritmo das águas que batem de leve nas pedras do rio. Uma cidade de horizontes baixos, onde o olhar costumava viajar livre entre o verde das copas das árvores e o azul-manta do céu fluminense. Mas o tempo, esse mestre de obras incansável, resolveu erguer novas estrofes no poema da paisagem.
Olho para cima e vejo o gigante que nasce. Ele não pede licença; simplesmente brota do chão, escalando o firmamento andar por andar. Feito de tijolo nulo e concreto bruto, ele se veste temporariamente com uma renda de mistério: essa tela de proteção que o envolve, uma filigrana gigante que flutua ao sabor do vento, como o véu de uma noiva que espera o futuro chegar.
Lá embaixo, a vida miúda e terna da praça resiste e acolhe. A palmeira abre seus braços verdes em um eterno aceno de boas-vindas ou de despedida para o horizonte que já não é o mesmo. O ferro retorcido no chão desenha contornos de uma infância que corre, enquanto a grama insiste em pintar de esperança o rodapé dessa nova era urbana.
Há uma melancolia mansa em ver o céu ser recortado em ângulos tão retos, tão definitivos. Cada novo andar é um pedaço de nuvem a menos que conseguimos avistar do banco da praça. Contudo, há também a poesia do movimento. O prédio em construção é o coração da cidade batendo em um ritmo acelerado, o progresso desenhando suas linhas verticais sobre a calmaria horizontal de nossa memória.
Bom Jesus assiste, entre o farfalhar das folhas e o eco distante do martelo, à sua própria metamorfese. A paisagem muda, o progresso finca suas raízes de cimento, mas a alma da cidade, essa permanece suspensa, feito a tela ao vento, observando o amanhã subir bem diante dos nossos olhos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário