No chão frio de cerâmica, onde a luz da tarde entra enviesada pela janela entreaberta, quatro corpos formam um círculo perfeito de afeto. Eu, no centro, tenho ao meu lado, três crianças, pequenas guardiãs do futuro, que transformam o momento em ritual.
À esquerda, a menininha de coque alto e chupeta ainda pendurada no peito como um amuleto de inocência folheia um livro colorido com a seriedade de quem já entende que as páginas guardam segredos. No meio, o menino de sorriso aberto e camiseta branca parece ter descoberto, ali mesmo, que heróis não precisam de capa: bastam palavras. À direita, a garotinha de jaqueta rosa segura A.N.J.O.S. com as duas mãos, como se o livro pudesse voar se ela o soltasse. Seus olhos brilham com aquela luz que só as crianças têm antes do mundo lhes ensinar a piscar.
Não é apenas uma foto. É um retrato do que resta de sagrado no tempo acelerado: o adulto que desce ao chão, que dobra as pernas, que se coloca no mesmo nível dos pequenos. Não há cadeira, não há altura. Há colo de chão, colo de livro, colo de presença.
Ali, não estou ensinando. Estou lembrando. Lembrando que um dia também fui criança curiosa, que também precisei de alguém que sentasse comigo para mostrar que as letras dançam quando lidas com carinho. E as crianças, por sua vez, não estão apenas recebendo: estão oferecendo. Oferecem o riso desdentado, a perna esticada, a confiança absoluta de quem ainda acredita que o mundo pode ser tão bom quanto as histórias que lhes contam.
Entre eles, os livros funcionam como pontes invisíveis. Terra e céu. Eu carregando a sabedoria sofrida da vida; as crianças, a pureza que ainda não aprendeu a duvidar.
Por um instante, o tempo para. O barulho do mundo lá fora, carros, notificações, preocupações, não entra por aquela janela. Só entra o silêncio habitado, aquele que nasce quando adultos e crianças se encontram no mesmo chão, no mesmo livro, na mesma esperança.
E eu, que olho essa imagem de longe, sinto um aperto doce no peito. Porque ali está a prova de que ainda podemos salvar o que há de mais precioso: o gesto simples de sentar juntos e deixar que as histórias nos salvem.
Que esse círculo nunca se quebre. Que sempre haja um adulto disposto a descer do pedestal e uma criança disposta a erguer os olhos do livro e sorrir, como quem diz: “Fica aqui. A história ainda não acabou.”

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