Dizem que quem nasce cercado por mar carrega o infinito nos olhos e uma saudade que antecede a própria partida. Quando o açoriano traz na bagagem o dom da palavra e o compasso do canto, a sua sina não é apenas cruzar oceanos, mas semear o seu cais interior onde quer que a vida decida ancorá-lo.
Francisco Amaro Borba Gonçalves sabe bem disso. Há uma linha invisível, mas profundamente sentida, que une os caminhos da alma. Ao devotar seu amor e seu talento a Bom Jesus do Itabapoana, ele não caminha sozinho; segue os passos luminosos de outro ilustre Francisco, também filho das ilhas de bruma, que no passado fez desta terra o seu altar de fé e poesia. É o mistério do nome e da origem que se repete, como se o Vale do Itabapoana tivesse um magnetismo secreto para os corações açorianos.
Mas Francisco Amaro não é apenas um herdeiro dessa tradição; ele é um criador de pontes. Multiplica-se em muitas vozes para cantar uma única paixão.
Como intelectual e memorialista, ele resgata o "tesouro histórico", debruçando-se sobre o passado para que o presente não se perca na poeira do tempo. Ele sabe que a identidade de um povo é um estandarte belo que precisa ser visto e compreendido. Como escritor e poeta, maneja o soneto com a precisão de quem lapida um cristal, invocando Camões e as navegações não para falar de distâncias geométricas, mas da vastidão do espírito humano.
E então, onde a palavra escrita parece alcançar o seu limite, brota o compositor e o cantor. A crônica da história se transforma em melodia. Quando ele canta que "no Brasil, terra sul-Americana / s’apaixonou por Bom Jesus do Itabapoana", a música deixa de ser apenas uma sucessão de notas e passa a ser um ato de transplante vital. As tradições açorianas, o culto aos Dons do Divino, o fervor da missão paroquiana que ecoou por Bom Jesus e Varre-Sai, tudo isso cria raízes profundas no solo fluminense.
Esse amor devotado e essa entrega profunda não passaram despercebidos pela terra que o acolheu. Em um gesto de merecido reconhecimento ao seu impacto cultural, intelectual e espiritual, o município de Bom Jesus do Itabapoana outorgou-lhe, com todas as honras e mérito, o título de Cidadão Bonjesuense. Uma honraria que apenas oficializou o que o seu coração já havia decretado: Francisco Amaro agora pertence, por direito e afeto, a este chão.
A paixão de Francisco Amaro Borba Gonçalves por Bom Jesus é de uma beleza lírica rara. Ele olha para o Vale com os mesmos olhos com que se olha para a terra lusitana natal. Não há ruptura em sua alma, há continuidade. O sotaque das ilhas harmoniza-se perfeitamente com o murmúrio das águas do Itabapoana.
Seu gênio é vitorioso justamente por isso: porque venceu a distância, venceu o esquecimento e transformou a própria vida em uma partitura de amor a uma terra que hoje o abraça orgulhosamente como um de seus filhos mais ilustres.
Segue sua poesia musicada em homenagem ao Mês de Padre Mello.
Vitorioso Gênio
Francisco Amaro Borba Gonçalves
"Soneto a um tesouro histórico"
Depois que bons cidadãos o pesquisaram,
Espalharam o seu nome e a grande arte;
Legado que em Bom Jesus, belo estandarte,
Fascínio de um “tesouro” que descobriram.
Depois de o sabê-lo, o admiraram
A quem de tão longe veio a esta parte
Que a Camões há um um pouco comparar-te;
Gênio de muitos que se civilizaram
Sem os tais acidentes da taprobana,
Por mares, por Cabral, ora navegados
Emigrou de sua terra açoriana
Com os Dons do Divino sempre lembrados;
Páraco de uma Fé que em Deus se emana
Muito fez em Bom Jesus do Itabapoana.
“No Brasil, terra sul-Americana
S’apaixonou por Bom Jesus do Itabapoana.
Como se fosse em sua terra Lusitana
Se dedicou ao Vale do Itabapoana.
Tradições de sua terra Açoriana
Enraizou na Região do Itabapoana.
S’empenhou em sua Missão Paroquiana
Em Varre-Sai e em Bom Jesus do Itabapoana..”
Letra e música de autoria de Francisco Amaro Borba Gonçalves
Concluído em 14/04/2026

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