A vida, em sua essência mais profunda, gosta de se desenhar em sessenta e quatro quadrados. Sentamo-nos diante dela, ano após ano, arrastando as cadeiras com o mesmo ruído surdo dos dias que começam. O tabuleiro está posto. De um lado, o destino; do outro, a nossa própria alma, tateando a madeira fria das peças.
Jogar essa partida exige um tipo silencioso de coragem. Não a coragem do impulso, que se perde no calor do primeiro ataque, mas a serenidade de quem olha o presente sabendo que ele é apenas o rastro de um futuro já calculado. É preciso ter tranquilidade de espírito para que a névoa do amanhã se dissipe, revelando uma visão clara, lances à frente. Cada movimento na existência pede a precisão cirúrgica de um relógio de xadrez: um segundo de hesitação e a oportunidade se desfaz; um toque precipitado e o destino muda de rumo.
Mas há uma sabedoria ainda mais refinada que o xeque-mate, e ela reside no silêncio antes do primeiro toque. O verdadeiro xadrezista conhece o valor do seu tempo e a dignidade do seu exército. Há vereditos que não se dão na vitória, mas na recusa. Quando o oponente diante de nós não merece a grandeza do nosso jogo, o lance dele será o primeiro e o único. Há uma elegância quase poética em levantar-se da mesa, em compreender que não devemos nos sentar diante de certos adversários. Ignorar a provocação mesquinha é, muitas vezes, a jogada mais brilhante.
Vemos passar por nós os peões da rotina, os passos retos e sacrificiais do dia a dia. Sentimos a força retilínea das torres que erguemos como certezas, o caminhar diagonal e sutil dos bispos nas entrelinhas do afeto, e o salto imprevisível dos cavalos diante dos obstáculos que a sorte nos impõe. Temos a dama, nossa liberdade, nossa paixão mais livre e poderosa, capaz de correr o mundo num sopro. E, por fim, o rei, que guarda a nossa essência mais vulnerável.
Sabemos, desde a primeira abertura, que a partida tem fim. Como xadrezistas do próprio destino, temos a clareza dolorosa e bela de que haverá um momento em que o nosso rei tombará. O tempo é um adversário implacável.
No entanto, há uma promessa secreta que fazemos a nós mesmos antes que o pano rápido do fim se feche: quando o momento chegar, nosso rei não será encontrado encurralado na borda cinzenta do esquecimento, nem humilhado no canto escuro do tabuleiro. Se tivermos que tombar, que seja lutando em campo aberto, marchando altivos para o centro do tabuleiro, onde a vida palpita mais forte. Que o último suspiro seja um lance de audácia, no coração do jogo.

Parabéns, lindo texto!!
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