No grande tabuleiro da existência, ninguém conhece a próxima jogada
Há abismos escondidos atrás de paisagens aparentemente tranquilas
A festa do casamento foi linda.
Havia flores, música, sorrisos e aquela espécie de felicidade que parece capaz de durar para sempre. Os pais dos noivos estavam talvez ainda mais felizes do que os próprios filhos. Para eles, naquele instante, o futuro parecia uma estrada aberta, iluminada e segura.
Na igreja, tomado pela emoção, o pai do noivo resumiu sua alegria numa frase espontânea:
- Meu filho casou bem!
Era uma frase simples, mas carregada de esperança. Naquele momento, ninguém poderia imaginar que o tempo haveria de transformar completamente o significado daquela afirmação.
Anos depois, o filho tiraria a própria vida.
E então, diante da tragédia, todas as certezas daquela dia de casamento pareceriam frágeis. Não porque alguém tivesse sido necessariamente enganado, mas porque a vida possui caminhos que os nossos olhos não conseguem enxergar.
Há uma espécie de arrogância involuntária em nossas previsões. Olhamos para uma fotografia do presente e imaginamos conhecer o filme do futuro.
Não conhecemos.
No xadrez, há uma palavra que traduz bem essa insuficiência humana: variantes. Diante de uma posição, o jogador procura calcular as possibilidades, imagina respostas, antecipa movimentos, tenta encontrar o caminho mais seguro. Mas nem mesmo o melhor enxadrista consegue dominar todas as variantes.
A vida é um tabuleiro infinitamente mais complexo.
Há movimentos que não previmos. Há peças que desaparecem. Há circunstâncias que surgem de onde nada parecia existir. Há decisões tomadas por outras pessoas, acontecimentos inesperados, sofrimentos silenciosos e abismos escondidos atrás de paisagens aparentemente tranquilas.
Às vezes acreditamos estar caminhando por uma estrada segura.
E estamos.
Até que, numa curva qualquer, percebemos que a estrada termina.
O mais doloroso é que, muitas vezes, aqueles que estão ao redor também não conseguem perceber o perigo. O sofrimento pode se esconder atrás de um sorriso, de uma fotografia de família, de uma festa bonita, de um casamento celebrado com pompa, de palavras aparentemente felizes.
Por isso, diante de uma tragédia como o suicídio, talvez devêssemos ser ainda mais humildes em nossos julgamentos.
O pai que disse “meu filho casou bem” não estava errado naquela igreja.
Ele apenas não possuía o futuro.
Ninguém possuía.
Essa é uma das mais duras lições da existência: não somos senhores das consequências de nossos próprios caminhos, muito menos dos caminhos daqueles que amamos.
Podemos amar profundamente alguém e, ainda assim, não conhecer completamente suas dores.
Podemos estar ao lado de uma pessoa e não perceber a tempestade que acontece dentro dela.
Podemos acreditar que tudo está bem porque, naquele instante, tudo parece estar bem.
E, de repente, a vida nos apresenta uma realidade para a qual não estávamos preparados.
Então percebemos, tarde demais, que a felicidade também é vulnerável.
Que nenhum casamento é garantia de eternidade.
Que nenhuma fotografia consegue registrar aquilo que se passa no interior de uma alma.
Que nenhuma previsão humana é suficientemente poderosa para impedir todos os desastres.
Essa é a dimensão mais desesperadora da existência: caminhamos tentando escolher as melhores variantes, calculando movimentos, construindo certezas, acreditando que conhecemos o tabuleiro.
Mas o futuro permanece oculto.
E, às vezes, a tragédia está justamente na casa seguinte.
Não há retorno.
Não há lance capaz de desfazer o movimento.
Resta aos que ficam a pergunta que nenhuma resposta consegue confortar completamente: como não percebemos?
Essa pergunta permanece para sempre sem resposta.
A vida, diferentemente do xadrez, não nos entrega todas as peças, todas as regras e todas as possibilidades.
Vivemos no escuro, iluminados apenas por pequenos clarões.
Um casamento.
Um abraço.
Um sorriso.
Uma palavra.
Uma promessa.
E seguimos.
Até que descobrimos, algumas vezes da maneira mais cruel, que a felicidade que julgávamos definitiva era apenas um instante.
E que, no grande tabuleiro da existência, ninguém conhece a próxima jogada.

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