sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A lanterna do diabo e a luz do amanhecer

 


Havia uma lanterna nas mãos do diabo.

A imagem inquieta porque costumamos imaginar a luz nas mãos de quem nos deseja bem. Desde pequenos, aprendemos a procurar um clarão quando a noite se torna profunda: a lâmpada acesa na casa de nossa mãe, a janela iluminada ao fim da rua, a chama que alguém protege do vento.

Mas até a luz exige que olhemos com cuidado.

Na imagem, o diabo segurava uma lanterna e apontava o facho para adiante. Podia mostrar uma passagem, destacar uma porta, fazer brilhar uma pedra. Ao redor, porém, permanecia a escuridão. Quem acompanhasse apenas o que estava iluminado talvez não percebesse o chão que faltava, a curva escondida, o abismo fora do alcance dos olhos.

Há momentos em que a vida se parece com essa cena. Uma promessa ilumina exatamente aquilo que desejamos. Uma palavra bonita encontra nossa esperança cansada. E nós, tão necessitados de amanhecer, sentimos vontade de seguir.

É humano. Quem atravessou muitas noites sabe o valor de uma pequena claridade.

A sabedoria tem algo de pausa: o instante em que, antes do próximo passo, procuramos enxergar também a mão que sustenta a lanterna. Perguntamos pelo caminho inteiro. Escutamos o silêncio entre as palavras. Observamos o que acontece com aqueles que chegaram antes de nós.

Pensamos nas luzes discretas que conhecemos. Nosso pai, diante de uma injustiça, fazendo da presença um abrigo. Nossa mãe, oferecendo amor com a naturalidade de quem abre uma janela pela manhã. Pessoas que, sem grandes anúncios, ajudam alguém a atravessar uma rua, a suportar uma perda, a recuperar a coragem.

A claridade dessas pessoas permanece mesmo depois que elas se afastam. Fica em nós, como o calor de uma casa lembrada.

Essa é a luz que precisamos aprender a reconhecer: aquela sob a qual podemos olhar ao redor, fazer perguntas e escolher nossos próprios passos.

O diabo segurava uma lanterna.

E, diante dela, alguém ainda podia parar, erguer os olhos e procurar o amanhecer.

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