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Existem músicas que nunca terminam. A última nota se dissolve no ar, os músicos recolhem seus instrumentos, os anos passam, mas alguma coisa continua tocando dentro de nós. Para Raul Travassos, os compassos iniciais de Vozes da Primavera, de Johann Strauss II, ainda abrem as portas do Cine Monte Líbano.
“Até consigo ouvir os compassos iniciais de ‘Vozes da Primavera’, de Strauss, prefixo musical que antecedia o início de todas as sessões do Monte Líbano”, recorda.
Sua lembrança nos devolve algo que uma fotografia não consegue guardar: o som de um lugar. Podemos contemplar a fachada, reconhecer as cadeiras, imaginar a tela. Mas é pela memória de Raul que voltamos a ouvir o cinema preparando-se para receber seus sonhos.
Antes das primeiras imagens, vinha a valsa. Enquanto as pessoas encontravam seus lugares, a música espalhava pela sala aquela promessa de primavera. Talvez alguém ainda procurasse uma cadeira; talvez uma conversa baixasse de tom para que os ouvidos acompanhassem a melodia. Cada espectador trazia consigo um dia inteiro de vida, e aqueles compassos anunciavam que chegara a hora de entregá-lo, por alguns instantes, à magia da tela.
Durante a música, ouviam-se três sinais sonoros e delicados.
O primeiro chamava a atenção. O segundo aproximava a expectativa. Ao terceiro, apagavam-se as luzes e começava o espetáculo.
Que magnífico esse pequeno ritual! O escuro chegava no momento combinado, acolhendo todos na mesma espera. Na tela, outra luz nascia. E Bom Jesus do Itabapoana se deixava conduzir por histórias que vinham de longe, mas encontravam lugar na intimidade de cada coração.
Na obra de Strauss, a primavera ganha voz: há o canto dos pássaros, a brisa, a natureza despertando. No Cine Monte Líbano, essa primavera também anunciava um despertar. Podia ser o começo de uma aventura, de uma gargalhada, de uma emoção que alguém levaria consigo ao sair da sessão.
Raul guardou os compassos. Guardou os três sinais. Guardou o instante preciso em que as luzes se apagavam. Sua recordação revela quanto da história de um cinema permanece nas pessoas que o frequentaram. Há um patrimônio feito de sons, gestos e esperas, preservado com delicadeza em algum recanto da memória.
Ao compartilhar sua lembrança, ele nos permite sentar novamente naquela sala. Por um momento, ouvimos com ele. Esperamos com ele. Reconhecemos, na música, o anúncio de uma felicidade antiga.
E, enquanto o Cine Monte Líbano caminha para reencontrar seu público, essa memória traz uma vontade singela: que Vozes da Primavera volte a percorrer a sala e encontre os ouvidos de uma nova geração.
Raul Travassos ainda consegue ouvi-la.
Talvez seja assim que um cinema comece a renascer: alguém se lembra de sua música, e uma cidade inteira se aproxima para escutar.


Wanda Reiniger: Parabéns, Raul, por traduzir em palavras a memória viva das “Vozes da Primavera”, resgatando emoções e lembranças tão preciosas.
ResponderExcluirQue o Cine Monte Líbano renasça como um espaço cultural, preservando sua história e acolhendo novas gerações, sem jamais apagar as boas lembranças que deixou em tantos corações!