sexta-feira, 9 de outubro de 2026

A rosa que o tempo não levou

 

Ela parou diante da parede como quem chega à porta de casa. Ergueu os olhos e, por um instante, a rua pareceu guardar silêncio para acolher aquele encontro.

No muro, um homem de cabelos brancos segurava uma rosa vermelha. A pintura conservava seu sorriso discreto, a elegância do paletó, as mãos marcadas pelo tempo. Diante dele, a senhora sorria também. Havia em seu olhar uma ternura tão serena que quase se podia ouvir uma conversa.

Talvez lhe contasse pequenas coisas do dia: o sol que aquecera a janela, uma visita inesperada, o café que passara um pouco mais forte. Talvez apenas permanecesse ali, desfrutando a companhia daquele rosto. Existem pessoas com quem aprendemos a conversar até em silêncio.

Os cabelos dela tinham a delicadeza da prata. No rosto, os anos haviam escrito suas linhas, mas os olhos ainda guardavam a luz de quem reconhece alguém querido entre todas as pessoas do mundo. O corpo encontrava apoio para seguir; o coração parecia conhecer sozinho o caminho.

A parede trazia rachaduras, tijolos à mostra, pedaços de reboco desprendido. Entre tantas marcas, a rosa permanecia aberta. Seu vermelho iluminava o velho paletó e parecia alcançar a senhora, como uma lembrança que, de repente, volta inteira: uma mão estendida, uma flor recebida, a alegria tímida de um primeiro encontro.

Era fácil imaginar que aquele sorriso lhe pertencesse havia muitos anos. Que ela o conhecesse à mesa, nas manhãs apressadas, nas tardes de descanso. Que tivesse visto aquele homem envelhecer enquanto ele também acompanhava, com carinho, a chegada dos fios brancos em seus cabelos.

Agora, diante da pintura, seu olhar dava movimento ao retrato. O homem parecia prestes a oferecer a flor. Ela parecia prestes a recebê-la.

E a rua, com suas janelas e pedras, tornava-se por um instante o cenário de um gesto simples, repetido através dos anos: alguém oferecendo amor; alguém reconhecendo-o.

A senhora demorou os olhos naquele rosto.

A rosa ainda era para ela.

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