sábado, 10 de outubro de 2026

A janela e a bandeira

 

Uma notícia precisa ser examinada: sua origem, suas evidências, o que ela afirma e o que apenas insinua. Pode ser falsa, injusta, incompleta. Contudo, se a rejeitamos antes dessa leitura, apenas porque desagrada à nossa preferência, entregamos à torcida uma tarefa que cabia à consciência



Certas pessoas abrem a janela pela manhã para receber o sol, mas se incomodam quando, pela mesma abertura, entra o vento. Gostaríamos de escolher tudo o que chega: a claridade, o perfume das flores, o canto dos pássaros. A vida, porém, nunca aceitou ser uma paisagem feita somente de nossas preferências.

Na política, às vezes, fazemos algo parecido.

Escolhemos um lado, abraçamos uma bandeira, depositamos esperanças em determinados nomes. Até aí, estamos exercendo o direito de acreditar. O problema começa quando a bandeira, antes erguida diante da janela, passa a cobri-la inteira.

Então, uma notícia chega. Traz alguma coisa que incomoda, uma pergunta que não desejávamos ouvir, um fato que perturba a tranquilidade de nossas certezas. E pedimos ao outro:

- Não me envie notícias desfavoráveis ao meu lado.

É uma frase pequena, mas capaz de revelar um grande receio: o de descobrir que aqueles em quem confiamos também precisam ser questionados.

Todos conhecemos, em alguma medida, esse desconforto. É mais agradável encontrar razões para continuar acreditando do que reconhecer um engano. Há um afeto investido nas nossas escolhas; revê-las pode doer como despedir-se de uma casa onde fomos felizes.

Mas a fidelidade a uma esperança não deveria exigir que fechássemos os olhos.

Uma notícia precisa ser examinada: sua origem, suas evidências, o que ela afirma e o que apenas insinua. Pode ser falsa, injusta, incompleta. Contudo, se a rejeitamos antes dessa leitura, apenas porque desagrada à nossa preferência, entregamos à torcida uma tarefa que cabia à consciência.

Também há quem peça silêncio porque está cansado. Quem deseja preservar uma amizade, tomar um café sem transformar a mesa em palanque, descansar das disputas que atravessam o dia. Esse pedido merece respeito. Ninguém é obrigado a viver cercado de debates. Outra coisa é reservar lugar à mesa somente para as notícias que nos dão razão.

O mundo se torna estreito quando só permitimos a entrada de nossas próprias certezas. Aos poucos, já não ouvimos o outro; ouvimos, na voz dele, apenas aquilo que autoriza a nossa concordância.

A maturidade começa num gesto discreto: ler até o fim aquilo que nos incomoda. Respirar antes de responder. Admitir que uma crítica possa conter justiça, mesmo quando alcança alguém que admiramos.

Uma amizade pode sobreviver a esse gesto. Uma convicção também. E, se precisar mudar, talvez encontre terreno mais firme.

Pensamos numa bandeira ao lado de uma janela aberta. O vento toca o tecido, move suas cores e continua entrando pela casa. Lá dentro, alguém lê uma notícia difícil, pousa o telefone e permanece por alguns instantes em silêncio.

Não perdeu o direito de acreditar.

Apenas deixou espaço para enxergar.

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