sábado, 19 de setembro de 2026

THEREZA: A MEMÓRIA QUE CELEBRA A VIDA



Certos encontros parecem casuais, mas trazem consigo a delicadeza dos acontecimentos preparados pela vida. 

Foi assim no dia 18 de setembro, no Arbórea, onde Thereza Maria Ribeiro Garcia estava ao lado do marido, Marlecildo Silveira, o querido Pitota. Estavam acompanhados de Mayara, Márcia, Chicão, Roberto e Dra. Ana Paula. A eles se uniu o mestre de xadrez Diogo Guimarães, campeão catarinense que visitava Bom Jesus do Itabapoana para participar de uma competição.

Em meio às conversas e aos sorrisos daquela reunião, Thereza parecia guardar em seus olhos as paisagens de muitas épocas. 

Filha de José Moraes Ribeiro e Neli Salles Ribeiro, nasceu em Niterói, em 30 de setembro de 1941, e cresceu entre cinco irmãos. Do pai, advogado e “diplomata” por vocação, herdou talvez a capacidade de unir pessoas e transformar episódios em histórias. José Moraes Ribeiro era conhecido como apaziguador de conflitos e fundador dos famosos bares do Jésus e do Manuel Quintino. Da mãe, bonita e dedicada ao lar, Thereza recebeu a ternura que o tempo não conseguiu apagar.

Em entrevista anterior ao O Norte Fluminense, sua memória percorreu a Fazenda das Areias e a Fazenda de São Tomé. Voltou também a Pirapetinga, onde chegou a ser rainha do futebol. Muitos anos depois, ao retornar à Fazenda das Areias e encontrá-la em ruínas, Thereza desmaiou. Não foi apenas diante de paredes desfeitas que seu corpo desfaleceu, mas perante o choque de ver parte de sua infância ferida pelo abandono. Certos lugares deixam de ser apenas propriedades: tornam-se moradas da alma.

Thereza foi aluna do Colégio Rio Branco e, mais tarde, retornou à escola não mais para aprender as primeiras lições, mas para ensiná-las.Exerceu o magistério também na Usina Santa Isabel, no Colégio Estadual Padre Mello, no Colégio Estadual Roberto Silveira, na Piedade e em outras instituições. Por suas mãos passaram gerações de estudantes. E todo verdadeiro professor continua vivendo, silenciosamente, na formação daqueles a quem ensinou.

Há 51 anos, Thereza divide a caminhada com Pitota, um dos maiores jogadores de futebol de sua juventude. Juntos, atravessaram alegrias, desafios e a dor irreparável da perda de um filho. Tiveram duas filhas e construíram uma história na qual o companheirismo se tornou porto seguro. 

Ao recordar sua trajetória, naquela entrevista, Thereza fez questão de mencionar duas figuras importantes: o magistrado Dr. José Ronaldo do Canto, a quem considera seu protetor especial, e Luciano Bastos, seu advogado e amigo.

Sua memória extraordinária guardou ainda uma página digna das mais saborosas crônicas bonjesuenses: a passagem de Garrincha e Elza Soares por Bom Jesus. Para receber o genial jogador, seu pai comprou uma valiosa garrafa de uísque Cavalo Branco. Garrincha, entretanto, recusou a bebida requintada e pediu cachaça, gesto simples e inesperado, próprio das histórias que atravessam o tempo.

A festa ocorreu no pavimento superior do prédio onde hoje funciona o Café Bistrô, imóvel então pertencente a Geraldo Campos. Estavam presentes José Moraes, Toninho Ferraz, Jorge Hobaica, Zé Cabeça, Darci Goiabada, seu irmão, Bilu, Jane do Bilu, Haroldo e a própria Thereza. Em determinado momento, porém, a alegria deu lugar ao alvoroço: Garrincha, enfurecido, acusava alguém de ter desrespeitado Elza Soares, com a mão. Formou-se um grande quiproquó. Foi então que entrou em cena José Moraes, o célebre “diplomata”, liderando a turma do deixa-disso. Com sua habilidade conciliadora, serenou os ânimos e permitiu que a festa chegasse a bom termo.

No Arbórea, enquanto o mestre Diogo Guimarães representava o universo das 64 casas e das incontáveis possibilidades, Thereza parecia representar outro tabuleiro: o da existência. Nele, algumas peças se perdem, outras atravessam longas distâncias, mas o amor, a memória e a amizade continuam defendendo o nosso rei interior contra o esquecimento.

Encontrar Thereza e Pitota, cercados por Mayara, Márcia, Chicão, Roberto, Dra. Ana Paula e Diogo Guimarães, é encontrar um pedaço vivo da história de Bom Jesus. Se existem  pessoas que envelhecem contando os anos, Thereza os transforma em lembranças, personagens e ensinamentos. 

“Adoro viver e tenho uma memória excelente!”, afirmou ela na mencionada entrevista.

E aí está o segredo de sua juventude: Thereza não permite que o passado se transforme em silêncio. Em sua voz, as fazendas se reerguem, os antigos colégios tornam a abrir suas portas, Garrincha volta a chegar a Bom Jesus e o velho “diplomata” retorna para apaziguar os ânimos.

Sempre que alguém como Thereza estiver entre nós para recordar, nenhuma história estará verdadeiramente perdida. E, enquanto ela continuar amando a vida com essa intensidade, será sempre a rainha não apenas do futebol de Pirapetinga, mas também do vasto e luminoso reino da memória, esse lugar sagrado onde o tempo se curva diante do amor, as ruínas voltam a ser morada e aqueles que partiram retornam, por um instante, para abraçá-la. Porque Thereza não guarda apenas lembranças: ela devolve vida ao que o tempo tentou levar. E, ao ouvi-la, compreendemos, com os olhos marejados, que certas pessoas jamais envelhecem, transformam-se em eternidade. dentro do coração de todos nós.


Thereza e Gino


Thereza e o Mestre de Xadrez Diogo Guimarães 


Roberto, Diogo e Chicão






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