quarta-feira, 3 de junho de 2026

Marcele e as Palavras que Florescem: A Menina que Nunca Partiu

 


Em Rio das Ostras floresce uma voz que não escreve apenas com tinta, mas com cores, formas e gestos: Marcele Azevedo Lima, arteterapeuta que transforma a arte em instrumento de libertação e a escrita em poesia viva, fazendo da criação um espelho da alma.

Profissional dedicada à saúde mental, Marcele descortina caminhos de cuidado e sensibilidade, especialmente voltados ao público infantojuvenil. Seu olhar acolhedor compreende que a infância e a juventude são territórios férteis para a construção de sonhos, valores e afetos.

Dedicada à literatura infantojuvenil, desenvolve obras que abordam a preservação do meio ambiente e prepara o lançamento de diversas publicações destinadas à conscientização das novas gerações. “Com leveza temática”, como ela mesma afirma, busca semear reflexões capazes de florescer no coração dos leitores.

Marcele pensa nas crianças e nos jovens como quem reencontra, a cada dia, a criança e a jovem que foi um dia. Nunca permitiu que sua criança interior se afastasse de si. Talvez por isso conserve intactos o encantamento, a esperança e a coragem de acreditar que o mundo pode ser transformado.

Seu coração e seu entusiasmo testemunham essa convicção. E, por meio da arte, ela abre portas interiores, revelando emoções guardadas e despertando a força serena do autoconhecimento.

Sonha com exposições, oficinas e um ateliê onde as múltiplas linguagens artísticas que tanto aprecia possam se entrelaçar à arteterapia, unindo cura e beleza, expressão e vida.

Porque a arte é sempre libertação. Ela acolhe o indizível, dá voz ao silêncio, transforma lágrimas em cores, cicatrizes em esculturas e dores em poemas. Não importa a estética da obra, mas o gesto que a gerou, a verdade que a inspirou, o coração que se abriu para criar.

É gratificante saber que ainda encontramos pessoas que vivem a partir da autenticidade do coração e da consciência, num mundo em que tantas vezes a sensibilidade e a capacidade crítica parecem enfraquecidas. Pessoas assim espalham esperança, cultivam sonhos e iluminam caminhos.

Por ocasião de seu aniversário, os sonhadores do mundo a cumprimentam, celebram sua trajetória e reverenciam a beleza de sua missão.

3º Leilão Show de Genética

 


Há uma poesia silenciosa no lombo do gado que o asfalto das grandes cidades jamais conseguirá compreender. Quem olha para o cartaz do 3º Leilão Show de Genética talvez enxergue apenas números, datas e cifras. Vê os "50 Lotes", o "sábado, 20 de junho de 2026", os contatos com o DDD 22. Mas o olhar lírico, aquele que traz o cheiro do orvalho impregnado nas botas, enxerga ali o compasso de uma sinfonia rural.

​O cenário anunciado é o Parque de Exposições da CAVIL. Imagino o burburinho que tomará conta do lugar a partir das 14h, quando os animais forem apresentados. Há uma dignidade ancestral na marcha de uma vaca em lactação; um mistério sagrado nas novilhas amojando, carregando no ventre o milagre da multiplicação e o leite que alimentará manhãs inteiras de tantas famílias brasileiras.

​A imagem nos mostra as vacas alinhadas, de costas, exibindo úberes fartos que parecem esculturas moldadas pelo tempo e pelo zelo do produtor. Elas carregam o esforço conjunto da Fazenda Boa Fama, do Rio de Janeiro, e da Fazenda Prosperidade, do Espírito Santo. É a união de terras, de sotaques e de sonhos transfronteiriços.

​Há também a modernidade que abraça a tradição: "100% dos animais são produtos de FIV (Fertilização In Vitro)". A ciência, essa deusa contemporânea, vestiu chapéu de palha e calçou botinas para desenhar a genética perfeita, bezerras CCG ½ e Gir PO que carregarão no sangue a promessa de um futuro mais próspero.

​Quando o martelo da Progredir Leilões bater às 17h, iniciando oficialmente o leilão, não estarão sendo vendidos apenas lotes de gado. Estará sendo negociado o suor do homem do campo, a persistência contra as intempéries do tempo e a esperança renovada a cada geração de bezerras que nasce. No reflexo das telas do YouTube ou na poeira mansa da CAVIL, o que se celebra ali é a vida que brota da terra e a certeza de que, enquanto houver o campo, haverá amanhã.




Os pirulitos da Maria do "Jorgim do Orestes"

 


Ontem fui ao mercado do Loro comprar algumas coisinhas para o almoço e me deparei com um pedacinho da minha infância. Numa das prateleiras, vi vários saquinhos com pirulitos que me fizeram lembrar imediatamente dos famosos pirulitos da "Maria Rouca", a "Maria do Cessão" ou "Maria do Jorginho do Orestes". Quem se lembra deles?

Na verdade, aqueles não eram os antigos pirulitos feitos por ela, mas bastou vê-los para que minha memória viajasse no tempo. Voltei aos dias de criança, quando não tínhamos geladeira, sofá nem fogão a gás. Mesmo assim, éramos felizes. E os pirulitos da Maria faziam parte dessa felicidade.

Era uma alegria quando nosso pai comprava um para cada filho, ou quando eles eram distribuídos nas festinhas da igreja e nas comemorações de São Cosme e São Damião. Que delícia! Maria preparava um caramelo saborizado com pozinho de Ki-Suco nos sabores morango, abacaxi, groselha e também havia o tradicional. O formato lembrava uma chupeta de bebê presa a um palitinho. Para nós, aquilo era o máximo! Demorava a derreter e adoçava nossas tardes e nossa vida.

Maria Rouca morava onde hoje se encontra o Parque Confiança. Seu esposo, Jorge Purificati(Jorgim do Orestes), era músico da Lira Santa Cecília e eletricista prático. Consertava aparelhos de som, fogões e televisores, prestando valiosos serviços à comunidade.

Os pirulitos que vi na prateleira não eram da Maria. Ela já partiu, assim como tantos outros personagens queridos da nossa história. Deixaram saudades de um tempo mais simples, em que um simples pirulito era capaz de alegrar uma cidadezinha inteira.

Hoje os tempos são outros. Muitos pais evitam que os filhos consumam doces por preocupação com a saúde. Cada geração tem seus costumes e seus cuidados. Mas confesso que guardo com carinho as lembranças daquela época em que as brincadeiras, os livros, as histórias em quadrinhos, as vidas dos santos e os pirulitos da Maria Rouca faziam parte do nosso universo infantil.

Talvez alguém leia este texto e ache graça dessa recordação tão singela. Mas quem viveu aqueles tempos sabe que a felicidade morava nas coisas simples. Havia menos conforto material, é verdade, mas sobravam afeto, convivência e encantamento.

E, para quem quiser despertar uma doce lembrança da infância, basta dar uma passada no mercado do Loro e comprar um daqueles pirulitos. Eles não são os da Maria Rouca, mas têm o poder de nos levar de volta a um tempo em que tudo parecia mais simples e a alegria cabia na palma da mão.

(Isabel Menezes - professora e historiadora - fragmentos do livro Memórias de uma menina Católica da década de 70)