![]() |
| Três gerações: Maria Apparecida Dutra Viestel, Maria Angélica e as duas netas, 2017, no Espaço Cultural Luciano Bastos |
Entre arquivos amarelados e lembranças guardadas como relíquias, a voz de Maria Apparecida Dutra Viestel nunca foi apenas a de uma pesquisadora, é a de quem vive dentro da própria história que conta.
Filha do historiador Antônio Dutra e neta do coronel Pedro Gonçalves da Silva, o “Cel. Pedroca”, primeiro prefeito na emancipação de Bom Jesus do Itabapoana em 25 de dezembro de 1890, Maria Apparecida cresceu ouvindo o passado como quem escuta histórias ao redor da mesa. Em sua memória, a cidade nunca foi cenário: sempre foi personagem.
Ela recorda que o pai certa vez publicou no jornal O Norte Fluminense o artigo “Instituições de Ensino”, posteriormente reunido no livro Páginas Memoráveis de Bom Jesus do Itabapoana, organizado por Delton de Mattos a partir de textos do jornal A Voz do Povo. Ali estavam os alicerces de uma narrativa maior, a educação como espinha dorsal do município.
Mas a história, para ela, sempre teve rosto.
Na década de 1920, sua tia Maria Gonçalves da Silva abriu uma pequena escola particular na antiga Rua dos Mineiros, hoje Rua Gonçalves da Silva. Entre os alunos estava o historiador Francisco Camargo, conhecido como Zico, futuro pai da pianista Nina, prova de que, em cidades pequenas, a cultura nasce em salas modestas e cresce em gerações.
A mestra ensinaria ainda por mais de trinta anos no Colégio Zélia Gisner, fundado por Adélia Barroso Bifano. Dona Adélia sonhara ser médica em Niterói, mas a morte inesperada do cunhado a trouxe de volta para cuidar da família. O pai, Francisco Bifano, construiu com tábuas da padaria os primeiros bancos escolares. Assim, em 1936, nascia uma professora, e com ela uma escola batizada em homenagem a uma amiga que partira cedo demais.
“Os alunos são como se fossem meus filhos”, repetia Dona Adélia, segundo Maria Apparecida, que ali lecionou Estudos Sociais, reunindo História e Geografia como quem costura território e memória.
Também ela percorreu as salas do Colégio Rio Branco. O diretor Luciano Bastos dizia que era “a prata da casa”. Mais tarde, ensinaria no Colégio Estadual Padre Mello, levando aos estudantes não apenas datas, mas pertencimento.
Hoje, quando fala, não fala apenas de escolas, fala de uma cidade educada por afetos. Em cada nome citado, Maria Apparecida reconstrói uma rede invisível de mestres, pais e alunos que ergueram Bom Jesus do Itabapoana com cadernos antes de tijolos.
Sua narrativa é jornalística porque informa, mas é lírica porque devolve vida.
E talvez seja esse o verdadeiro papel do historiador: impedir que a memória vire silêncio.

Nenhum comentário:
Postar um comentário