domingo, 20 de setembro de 2026

Uma Página Saborosa da Memória Bonjesuense: Garrincha, Elza Soares e a cachaça de Bom Jesus

 

Nas Memórias de Teresa, uma Noite com Garrincha




Teresa, Pitota, Mayara, Márcia, Chicão, Roberto, Dra. Ana Paula e o Mestre de Xadrez Diogo Guimarães 

Certos encontros parecem casuais, mas trazem consigo a delicadeza dos acontecimentos preparados pela vida. 

Foi assim no dia 18 de setembro, no Arbórea, onde estavam Teresa Maria Ribeiro Garcia e seu marido Pitota, cercados por Mayara, Márcia, Chicão, Roberto e Dra. Ana Paula. Depois, se uniu ao grupo o Mestre de Xadrez Diogo Guimarães, campeão de Santa Catarina, que veio disputar uma competição. Encontrar com eles é como encontrar um pedaço vivo da história de Bom Jesus

A memória de Teresa é dessas antigas casas bonjesuenses: abre-se uma porta e, de repente, encontramos uma sala iluminada, povoada por vozes, risos e personagens que pareciam adormecidos, mas permaneciam vivos à espera de alguém que os chamasse pelo nome.

Entre as muitas recordações que Teresa conserva, há uma página digna das mais saborosas crônicas de Bom Jesus: a passagem de Garrincha e Elza Soares pela cidade.

Garrincha não era apenas um jogador de futebol. Era o homem que fazia a bola sorrir. Dentro de campo, driblava adversários; fora dele, driblava solenidades, protocolos e aparências. Talvez por isso o episódio ocorrido em Bom Jesus combine tanto com a sua personalidade.

Desejando receber com todas as honras aquele gênio das pernas tortas, José Moraes, pai de Teresa, comprou uma valiosa garrafa de uísque Cavalo Branco. Tratava-se de uma bebida requintada, reservada para ocasiões especiais. E aquela certamente era uma delas: Garrincha e Elza Soares estavam em Bom Jesus!

Mas o craque olhou para o sofisticado uísque e recusou-o. Não queria Cavalo Branco. Pediu cachaça.

Naquele instante, a solenidade perdeu para a simplicidade. O famoso jogador, acostumado aos grandes estádios e aos aplausos do mundo, preferiu a bebida comum das rodas de conversa, dos balcões modestos e das histórias contadas sem cerimônia. Garrincha continuava sendo Garrincha: imprevisível até diante de uma garrafa.

A festa aconteceu no pavimento superior do prédio onde hoje funciona o Café Bistrô, imóvel que pertencia, naquela época, a Geraldo Campos. Estavam ali José Moraes, Toninho Ferraz, Jorge Hobaica, Zé Cabeça, Darci Goiabada, seu irmão, Bilu, Jane do Bilu, Haroldo e a própria Teresa. Uma autêntica seleção de personagens bonjesuenses reunida ao redor do mais desconcertante ponta-direita da história do futebol e de uma das maiores vozes do Brasil.

Tudo transcorria entre conversas e risadas até que, subitamente, o ambiente mudou. Garrincha percebeu, ou acreditou perceber, que alguém havia desrespeitado Elza Soares com um gesto de mão inconveniente. Enfureceu-se. A alegria deu lugar ao alvoroço. Vozes se levantaram, explicações se cruzaram e formou-se um enorme quiproquó.

Foi então que entrou em campo José Moraes.

Conhecido como o “diplomata”, ele não precisou de bola, chuteiras ou apito. Liderando a tradicional turma do deixa-disso, aproximou-se com a serenidade de quem sabia que certas partidas não se vencem pela força, mas pela palavra certa pronunciada no momento exato. Conversou, ponderou, acalmou os exaltados e, pouco a pouco, devolveu a paz ao salão.

Se Garrincha era mestre em desmontar defesas, José Moraes mostrou-se mestre em recompor amizades. Naquela noite, o craque dos gramados encontrou em Bom Jesus outro tipo de jogador: aquele capaz de driblar a raiva, vencer o conflito e conduzir uma festa ameaçada até um final feliz.

Décadas se passaram. O prédio permanece, agora acolhendo o Café Bistrô. Os antigos participantes da festa seguiram os caminhos reservados pelo tempo. Contudo, basta Teresa abrir as janelas de sua memória para que todos retornem: Garrincha recusando o Cavalo Branco e pedindo cachaça; Elza Soares atraindo todos os olhares; os amigos bonjesuenses reunidos; o súbito tumulto; e José Moraes, o eterno “diplomata”, restaurando a harmonia.

Algumas histórias não foram escritas nos jornais nem registradas pelas câmeras. Sobreviveram porque alguém as guardou amorosamente no coração. Graças à extraordinária memória de Teresa, aquela noite ainda acontece no andar superior de um velho prédio de Bom Jesus.

E talvez Garrincha continue lá, em algum lugar do tempo, recusando o uísque requintado, pedindo uma boa cachaça e oferecendo à memória bonjesuense mais um de seus inesquecíveis dribles.

Teresa e Gino


Teresa e o Mestre de Xadrez Diogo Guimarães 

Mané Garrincha, governador Roberto Silveira e esposa Ismélia, em baile no Aero Clube, no dia 13 de agosto de 1960, em Bom Jesus do Itabapoana (foto enviada por Ercília Borges do Carmo e Ernesto Tavares Borges)




Um comentário:

  1. Gino Bastos, na cultura, é inspiração,
    Ativista que semeia conhecimento,
    Com arte, coragem e dedicação,
    Faz da cultura um eterno movimento. 📚✨❤️

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