sábado, 10 de outubro de 2026

O rio que abraça dois nomes

 


Vista do alto, a paisagem parece ter sido desenhada por uma mão que conhecia a delicadeza das curvas. No meio da casas, ruas e morros, o Itabapoana segue seu caminho sem pressa aparente, como quem tem muitas histórias para contar e sabe que nenhuma delas cabe numa linha reta.

De um lado, Bom Jesus do Itabapoana, no Rio de Janeiro. Do outro, Bom Jesus do Norte, no Espírito Santo. Dois nomes inscritos nos mapas, duas cidades que aprenderam a reconhecer, na margem vizinha, uma extensão de seus afetos.

Há quem atravesse a ponte para trabalhar. Há quem a atravesse para visitar a família, encontrar um amigo, comprar o pão ou simplesmente voltar para casa. Nesses passos cotidianos, a distância entre dois estados ganha a medida de uma conversa, de um abraço, de uma saudade que pode ser vencida a pé.

O rio acompanha tudo.

Sob as pontes, passam águas que já viram outros rostos inclinados sobre suas margens. Gente que cresceu, partiu, envelheceu. Crianças que descobriram ali o espanto de uma correnteza; namorados que guardaram uma tarde; moradores que aprenderam a observar o céu quando a chuva se prolongava. Existe um encanto nessas águas, mas há também respeito, aquele que nasce de conhecer suas cheias e compreender a força que carregam.

Na imagem, as casas parecem pequenas. Dentro delas, porém, a vida tem sua imensidão: uma mesa posta, uma ausência sentida, alguém esperando notícias, uma janela aberta para o fim da tarde. O olhar que contempla a paisagem de longe não alcança cada história, mas pode pressentir quantas existem.

E então as curvas do Itabapoana adquirem outro sentido. Parecem braços acomodando a terra, contornando os bairros, aproximando lugares que a linguagem dos documentos distingue.

Os morros, ao fundo, permanecem como velhos guardiões. Nas ruas, a vida continua: uma porta se abre, alguém chama pelo nome de alguém, um encontro acontece. Entre uma margem e outra, as pontes sustentam essa familiaridade construída dia após dia.

Esse é o encanto mais profundo das duas Bom Jesus: poder olhar para o outro lado e reconhecer uma parte da própria vida.

O Itabapoana segue. Leva nas águas o reflexo passageiro das casas e do céu. Nas margens, ficam as lembranças, e essa maneira tão nossa de pertencer a dois lugares quando o coração aprende o caminho da ponte.

Nenhum comentário:

Postar um comentário