Bom Jesus do Itabapoana e Bom Jesus do Norte: unidas pelas águas e pelo afeto
Duas margens, um só coração
Vista do alto, Bom Jesus parece repousar no colo das montanhas. As casas se aproximam, as ruas se entrelaçam, os bairros avançam pelas encostas, e o rio Itabapoana desenha suas curvas como quem escreve, devagar, uma longa declaração de amor à terra.
Diante dessa imagem, uma pergunta nasce quase espontaneamente: o rio separa Bom Jesus do Itabapoana e Bom Jesus do Norte ou mantém as duas cidades unidas?
Os mapas assinalam limites. De um lado, o Rio de Janeiro; do outro, o Espírito Santo. Mas a fotografia aérea nos convida a demorar os olhos sobre aquilo que as linhas administrativas não conseguem explicar. Os telhados parecem pertencer à mesma conversa. As montanhas acolhem as duas cidades no mesmo horizonte. E o rio, entre elas, recebe a luz de um único céu.
Há uma ternura nessa geografia.
O Itabapoana faz curvas, aproxima-se das casas, contorna a terra, prossegue. Visto assim, lembra uma fita antiga envolvendo um presente precioso: a vida de um povo que aprendeu a se reconhecer nas duas margens. Suas águas levam adiante o tempo, enquanto nas pontes passam os pequenos acontecimentos de cada dia, o trabalho, a visita, o encontro, a volta para casa.
Quem atravessa leva consigo alguma coisa de uma margem para a outra. Uma notícia, uma preocupação, uma promessa, uma saudade. E, nesse movimento cotidiano, as duas cidades renovam uma união que se realiza nos passos de seus moradores.
O açoriano Padre Mello, que chegou a Bom Jesus em 1899, alimentou a ideia de promover a união geográfica dos municípios. Há algo profundamente comovente nesse sonho: perceber, diante de uma divisão territorial, a possibilidade de uma terra reunida.
Talvez o sacerdote enxergasse, à altura dos olhos, aquilo que esta imagem nos permite contemplar do céu. Talvez percebesse que havia uma continuidade humana acompanhando as curvas do rio, uma identidade crescendo entre as casas, uma fraternidade que merecia encontrar expressão também na geografia.
Seu sonho nos alcança hoje como uma pergunta deixada à posteridade.
Olhamos a imagem e imaginamos quanto lhe teria tocado o coração essa visão ampla: as duas cidades tão próximas, os bairros compondo um tecido de ruas e telhados, as pontes costurando as margens. Do alto, os nomes permanecem, mas é difícil determinar onde termina o sentimento de pertencer a uma Bom Jesus e começa o de pertencer à outra.
A paisagem parece respirar inteira.
E o rio continua ali, guardando em suas águas o reflexo das duas cidades. Quando a noite chega, luzes de ambas as margens se debruçam sobre ele. O Itabapoana recebe todas, mistura seus brilhos, oferece-lhes a mesma correnteza.
Existem sonhos que permanecem vivos porque cada geração encontra uma maneira de retomá-los. A ideia de Padre Mello pode ser lembrada também nas aproximações que cultivamos, nos projetos que compartilhamos, no cuidado com esse rio que pertence à vida de todos.
Contemplar Bom Jesus do Itabapoana e Bom Jesus do Norte do alto é sentir que a paisagem nos pede esse cuidado.
No meio de montanhas, casas e caminhos, o Itabapoana segue escrevendo sua história. E, em cada curva, parece deixar uma delicada certeza: existem duas margens para que o abraço tenha onde pousar.

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