Por Gino Martins Borges Bastos
No ano de 2012, estive na casa de Dona Nina, a musicista Georgina Mello Teixeira. Sua sala de visitas guardava a leveza da hospitalidade e a doçura da conversa, mas foi na Sala do Piano que o tempo parou. Ali, suas mãos fizeram soar músicas de seu vasto repertório, como se cada tecla fosse também uma oração.
Mais tarde, na varanda, enquanto o café se servia como rito de amizade, uma vitrola trouxe à vida um vinil raro. Na capa, a dedicatória de Miguel Proença - pianista de prestígio internacional, educador e gestor na área cultural - à pianista bonjesuense, quando esteve no Colégio Zélia Gisner:
“Para Nina com o melhor abraço e o carinho de Miguel Proença. 31-7-1990.”
Era um elo entre artistas, entre histórias, entre destinos marcados pela mesma paixão.
Ontem, Miguel partiu. Foi tocar piano com Dona Nina no céu. E eu, que guardo ainda a lembrança daquela tarde, sinto que o universo abriu suas portas para mais um concerto eterno.
Mauro Ferreira, em sua coluna no g1, registrou a despedida. Miguel Proença, menino de Quaraí que se apaixonou pelo piano ao ouvir sons vindos de um casarão, homem de fraseado único, embaixador da música erudita pelo mundo, deixou a vida aos 86 anos, no Rio de Janeiro. Respirava Arte, como definiu o amigo Márcio Gomes. E respirava também Brasil, ao difundir nossos compositores, ao educar gerações de pianistas.
Em Bom Jesus, a história do piano tem raízes antigas. Desde o final do século XIX, quando outra Georgina, Medina, encantava saraus, passando por Georgina Diniz, Georgina Freitas Lima e chegando, enfim, à quarta Georgina: Dona Nina. Todas elas fizeram do piano não apenas instrumento, mas destino. Nos jornais de 1917 já havia anúncios de aulas de piano, como se a cidade inteira se afinasse em torno das teclas. Ivete Soares Diniz, a primeira pianista formada de nossa cidade, abriu alas ainda na década de 1930.
Nos tempos do Conservatório, eram mais de 200 alunos, mais de 60 pianos espalhados pelas casas, como quem guarda relíquias vivas. Hoje, a tradição renasce com o projeto “Bom Jesus, Capital do Piano”, idealizado por Luis Otávio Barreto.
No próximo dia 10 de setembro, Dona Nina completaria 101 anos. Não chegou a esta data, mas deixou em nós sua marca de eternidade. Assim como Miguel.
O piano, em Bom Jesus do Itabapoana, não é apenas música: é identidade, é herança, é memória. E se a vida é breve, o som que eles fizeram ecoa além do tempo. Agora, em algum lugar do céu, Miguel e Dona Nina dividem um mesmo palco. E nós, cá na terra, fechamos os olhos e ouvimos, no silêncio, no vento, no coração, o concerto infinito que eles continuam a tocar.
Ouçam canções compostas por Dona Nina.
https://onortefluminense.blogspot.com/2016/01/dona-nina-pianista-de-bom-jesus-do.html
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