sábado, 23 de agosto de 2025

Minhas Histórias

 

Carolina Boechat 


Gosto de contar histórias; sou o extremo da falta de graça, não consigo imitar vozes e trejeitos, mas consigo me arranjar com a palavra escrita e ela é a minha ferramenta. 

Chegando recente ao mundo das Letras, trouxe comigo uma mala pesada que sequer descansei no vão da porta ao pedir licença para entrar. Nela, estão as memórias de um mundo onde eu era invisível. 

Aqui, novamente pontuo a vivência entre minha mãe e a tia viúva que acolheu meu pai, deliberadamente feito órfão. Ambas inspiraram personagens do meu livro. Na vida real, eram irmãs e passaram a vida disputando a posse de um cordão de ouro. 

Deste, posso rastreá-lo a partir do momento em que um caixeiro-viajante passou pela região, há não menos de noventa anos, vendendo as peças de finíssimo ouro, capazes de fazerem revirar os olhos das meninas tão pouco afeitas ao luxo das joias. 

Um deles foi comprado por conhecidos e, anos mais tarde, doado à Nossa Senhora com a condição de que Ela tomasse conta das netas que se mudaram para longe, sendo o vigário da paróquia, legítimo representante da divindade.

O outro, comprou o meu avô materno para as filhas usarem-no pacífica e alternadamente. Compreendido ou não, o trato jamais foi cumprido, passando a cobiçada joia para minha mãe somente depois da morte da irmã. 

E com a morte de minha mãe, o cordão veio parar em Niterói, sendo eu sua guardiã.

Logo que chegou para mim, bateu vontade de saber até que ponto era ouro o amarelo pálido de sua cor e o veredito não surpreendeu: ouro de tolo (pirita), um mineral que se parece com ouro, mas com valor irrisório.

Depois desta avaliação, eu mantenho o cordão guardado com redobrado carinho e sequer procurei outro parecer. Ouro ou não, ele tem um protagonismo que encanta e foi personagem central de longa e movimentada história envolvendo pessoas tão queridas e das quais guardo tanta saudade.

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