terça-feira, 26 de agosto de 2025

Pirapetinga: onde a memória floresce com amor e esperança

 

Adalto Boechat Júnior no Museu da Imagem 


Nasci e cresci em minha amada Pirapetinga de Bom Jesus, ouvindo histórias contadas por meus pais e pelos mais idosos. Histórias que me encantavam e me faziam sonhar. Cresci também admirando os prédios centenários das fazendas imperiais, eles, silenciosamente, também contavam histórias. O Museu da Imagem era um templo: guarda memórias sagradas, era altar de fé.

Mas o que aconteceu?

De repente, nossos espaços sociais se transformaram em botequins. O museu não dispõe de espaço para palestras, nossas praças não abrigam encontros culturais, e até a vila das vinte e cinco casas do governo conta hoje com mais de seis pontos de venda de álcool. Tudo virou bar.

E eu me pergunto: o que seria da comunidade se esses lugares fossem templos de cultura, partilha de sonhos e esperança?

No dia 24 de agosto, reunimo-nos numa manhã cultural e fraterna: eu, Dra. Lina Serodio, Carlos Eduardo Oliveira, Alexsandra Santana, Ronaldo, Adriana, Fernando, Dona Dulcinea, Jefferson e Dolores. Passeamos pela pracinha, visitamos o museu, e almoçamos na fazenda da Dra. Lina. O encontro se encerrou com um bate-papo com duas mestras queridas, Adires Boechat e Isa Boechat, professoras e diretoras que marcaram nossas escolas.

Relembramos os desfiles escolares, que reuniam trezentos alunos e ex-alunos. Os mais impactantes traziam como tema: passado, presente e futuro.

Falamos dos tropeiros que carregavam a economia da comunidade: Chichico, na Fazenda das Areias; Nego Gregório, no Bonito; Limpinho, na Mirindiba. Outros, das fazendas do Pavão e de Frederico Lengruber, ficaram na memória sem nome.

E veio a história do primeiro caminhão da Vargem Alegre, não documentada, mas maravilhosa. Caminhões sem portas, vendidos em partes, como quem oferece acessórios. Jacinto Seródio, pensando na segurança das crianças, comprou as portas. Um dia, o motorista perdeu o controle no Morro da Palha Branca. Em pânico, abriu a porta e pulou, gritando: “Tira o conforto! Abre o conforto!”, confundindo a porta com o “conforto” que havia sido comprado. E assim nasceu o primeiro caminhão com portas na comunidade.

Os outros caminhões eram abertos. Se chovia molhava os passageiros que se arranhavam no mato que entrava no veículo. Às vezes, crianças e idosos cochilavam e caíam do caminhão em movimento. Rimos juntos. Rimos com a leveza de quem se reconhece na memória.

Cada um do nosso grupo tem um dom: psicólogos, professora, homeopata, enfermeiro, veterinária. Queremos, de tempos em tempos, visitar as casas, orientar jovens, combater álcool e drogas, apoiar meninas em sua pré-idade. Somos apenas doze. Mas se Jesus, com doze, mudou o mundo, será que nós não podemos mudar a Vargem Alegre?

Faltaram na foto dois gigantes: Vivalde e Norberto Boechat, que aos 80 e 93 anos foram colaboradores incansáveis. Norberto sonhava com duas faixas nas entradas de Pirapetinga, por Bom Jesus e por Itaperuna, anunciando: “Visite nosso Museu, curta nossa pracinha, conheça nossas cachoeiras, leia um livro das Casinhas Bibliotecas.” Essas casinhas já são três. No início, não foram bem acolhidas. Mas hoje florescem, repletas de livros de reflexão, oração e catequese, sempre trocados por mãos anônimas.

Há sementes boas em nossa terra. Há gigantes na enfermagem da Vargem Alegre. Há histórias de coragem como a da profa. Anizia Maria Pimentel, que, percebendo que 90% dos alunos não seguiam no segundo grau, conseguiu uma kombi para levá-los a Bom Jesus e Itaperuna. Levava-os até à praia, como prêmio por acreditarem no estudo. Mulher extraordinária, exemplo de como a educação pode mudar destinos.

E eu, que me formei em enfermagem, profissão à qual me dediquei de corpo e alma, ajudando a salvar vidas, sinto orgulho de ter inspirado outros a seguir essa profissão. Me sinto orgulhoso de saber que teve gente que fez enfermagem por exemplo meu. Nada me realiza mais do que perceber que o pouco que faço tem importância para pessoas simples e humildes. Saber que alguém não caiu pela vida porque encontrou apoio em um gesto nosso é motivo suficiente para eu dizer: a vida valeu a pena.

Meu coração explode de felicidade.

E este é o mundo que eu quero: um mundo onde a memória floresça, onde a cultura resista, onde a esperança se torne ação.







Casinha Biblioteca 





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