O pacto de franqueza do Realismo
Espero que esteja tudo bem com você, Gino.
As escolas literárias costumam ser vistas como estantes bem organizadas: aqui ficam os poemas épicos, ali os autores românticos, mais adiante os naturalistas. Cada uma cultiva um tipo particular de olhar para a realidade. O arcadismo, por exemplo, prefere a simetria das paisagens e a clareza das ideias; o romantismo se lança às tempestades da alma; o simbolismo filtra o mundo por imagens e sons quase secretos. Esses movimentos, com seus métodos e preferências, funcionam como mapas imperfeitos para quem se aproxima de uma obra com atenção.
Eles podem ajudar ou não a compreender de onde vem certo tom, por que aquele narrador prefere a confissão ou a parábola, de que maneira o enredo se constrói ao redor de um sentimento dominante. Mas é preciso lembrar que os grandes escritores nunca cabem por inteiro nessas gavetas. Tolstói não se reduz ao realismo; Machado não é apenas ironia; Dostoiévski não cabe inteiramente nas definições de crítico algum. Eles foram enfiados, muitas vezes à força, nas molduras das escolas literárias, apenas para cumprir fins didáticos.
O realismo, em particular, escolheu voltar os olhos para o que antes ficava à margem da literatura. Ele não ignora que paixões e ideais movem o homem, mas prefere observar como esses mesmos ideais se desgastam no convívio diário, como se dobram diante de necessidades miúdas, como se confundem com ambições pessoais. Os heróis grandiosos dos românticos, movidos por paixões absolutas, dão lugar a personagens que vacilam, se retraem, sustentam máscaras.
Basta pensar em Emma Bovary, que trocou o tédio conjugal pela fantasia de um amor arrebatador e encontrou apenas promessas ocas, repetições previsíveis, o mesmo cansaço de que pretendia fugir. Ou em Rubião, de Quincas Borba, que sonhava com poder e terminou vagando pelas ruas, convencido de governar a cidade. São quedas muitas vezes ridículas, que revelam a distância entre o sonho e a vida real.
Ainda assim, o realismo não se resume a colecionar ruínas. Há nele um espaço para a reconstrução — mas só depois de atravessar a verdade inteira da crise. Liévin, em Anna Kariênina, aprende a sustentar-se na vida comum; Raskólnikov, de Crime e Castigo, encontra alívio não ao fugir da culpa, mas ao levá-la até o fim. Nesse tipo de narrativa, redenção e fracasso partem do mesmo ponto: a aceitação de que não existe chão limpo de imperfeições.
Ao retirar a auréola das personagens, o realismo também muda a linguagem. O tom exaltado cede lugar à ironia, ao distanciamento calculado; o narrador abandona a pose de guia infalível e deixa dúvidas à mostra. Com isso, obriga o leitor a caminhar sem apoios prontos — e cria, dessa forma, uma atmosfera muito parecida com a vida de todos os dias.
O que o realismo destaca da experiência humana é justamente essa mistura de grandeza e fraqueza que nos acompanha a cada passo. Ele expõe a teia de interesses, ilusões e pactos frágeis em que vivemos, mostra que não se compreende alguém apenas pelas atitudes nobres, mas também pelos constrangimentos, pelas pequenas traições que sustentam o dia a dia.
Um grande romance realista propõe um pacto de franqueza com você, Gino. Ele quer que você veja o homem como ele é, sem filtros que o tornem mais agradável do que merece. Também ensina que, se a literatura pode nos ajudar a viver, será sempre por essa aproximação com o real, por essa recusa a encobrir o que precisa ser visto.
Com meu forte abraço,
Rodrigo Gurgel
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