Por Gino Martins Borges Bastos
Sempre nos lembraremos com afeto daqueles que nos trataram bem
A reflexão sobre o suicídio deixa de ser apenas uma reflexão sobre a morte, e passa a ser uma defesa da vida
Diante do mistério da morte, a nossa resposta mais humana continuará sendo a defesa incansável da vida
A maior homenagem que podemos prestar aos que partiram seja aprender a enxergar melhor os que ainda estão conosco
O que podemos fazer para que a pessoa encontre o caminho antes que seja tarde demais?
Existem pessoas que, mesmo depois de partir, continuam caminhando conosco
Existem acontecimentos diante dos quais as palavras parecem perder a força. O suicídio é um deles.
Quando a notícia chega, quase sempre vem acompanhada de uma pergunta que permanece suspensa no ar:
- Como é possível que Alex tenha se suicidado?
E logo surgem outras: que dores carregava? Que motivos o levaram a tomar uma decisão que, para os que ficaram, parece impossível de compreender? Haveria algum pedido de socorro escondido em seus silêncios? Algum gesto que não percebemos? Alguma tristeza que passou diante de nossos olhos sem que soubéssemos reconhecê-la?
Nunca saberemos.
Alex era, para mim, uma pessoa de fino trato. Alguém que sempre demonstrou bondade e educação. É justamente por isso que sua partida causou ainda maior perplexidade. A notícia não combinou com a imagem que guardamos dele. E talvez seja essa uma das faces mais dolorosas do suicídio: ele nos coloca diante daquilo que não conseguimos enxergar na alma do outro.
Antes de partir, Alex deixou uma carta, escrita com caligrafia sóbria.
Uma carta.
Às vezes, poucas palavras deixadas sobre o papel carregam um peso maior do que uma vida inteira de conversas. Não sabemos exatamente o que se passa no coração de alguém quando ele decide interromper a própria existência. Sabemos apenas que, naquele instante extremo, alguma coisa dentro dele tornou-se insuportavelmente pesada.
Acompanhei Alex até a sepultura.
Segurei a alça de seu caixão. Algumas vezes precisei parar. O peso era grande demais para que eu conseguisse levá-lo sozinho até o fim.
Existe uma metáfora involuntária nesse gesto.
Há pessoas que carregamos por um trecho da vida. Depois, quando chega a hora da despedida, percebemos que não conseguimos carregar sozinhos todo o peso da ausência.
Mas carregamos a memória.
E essa ninguém nos tira.
Sempre nos lembraremos com afeto daqueles que nos trataram bem. O tempo pode apagar detalhes, modificar paisagens, levar embora fotografias e objetos, mas há pessoas que permanecem na delicada região da lembrança onde o afeto resiste.
Esta crônica é, portanto, uma homenagem à memória de Alex.
Que sua memória seja eternizada não pela circunstância de sua morte, mas pela pessoa que foi.
Talvez por uma dessas coincidências misteriosas da vida, há na biblioteca de meu pai um livro antigo que parece conversar silenciosamente com essa história.
É "O suicídio em face da psicopatologia, da literatura, da filosofia e do direito", de Napoleão Lyrio Teixeira, intelectual bonjesuista, irmão da professora Amália Teixeira, que foi professora do ex-governador Roberto Silveira.
Publicado em Curitiba pela Editora Guaíra, entre 1947 e 1948, o livro possui 176 páginas e revela, já no título, a amplitude da investigação de seu autor. Napoleão não quis olhar o suicídio por uma única janela. Procurou compreendê-lo pela psicopatologia, pela literatura, pela filosofia e pelo Direito, acrescentando ainda as perspectivas psiquiátrica, médico-legal e profilática.
O livro de Napoleão Teixeira atravessa o tempo porque ousou olhar para onde quase ninguém queria olhar.
Nascido em 11 de abril de 1905, no Sítio do Limoeiro, município de São José do Calçado, no Espírito Santo, filho de Regina Carvalho e João Manoel Teixeira, Napoleão teve sua formação inicial em Bom Jesus do Itabapoana. Foi uma infância marcada pela simplicidade e pelas dificuldades econômicas agravadas pela crise de 1929.
Mas havia nele uma inquietação maior que as circunstâncias.
Foi para o Rio de Janeiro, ingressou na Faculdade de Medicina e formou-se em 1933. Depois de atuar em diferentes áreas, encontrou na Psiquiatria um território que lhe permitiria aproximar-se de uma das regiões mais misteriosas do ser humano: a mente.
Trabalhou no Serviço do professor Henrique Roxo e, em 1941, foi convocado para o Serviço Médico do Exército. Serviu em Curitiba, onde acabou radicando-se e construindo uma extraordinária trajetória intelectual e acadêmica.
Em 1944, conquistou a livre-docência em Psiquiatria e, também naquele ano, apresentou a tese O Suicídio em Face da Psicopatologia, da Literatura, da Filosofia e do Direito.
É impressionante pensar que um homem nascido em nossa região tenha se debruçado, há mais de sete décadas, sobre um tema que continua nos interrogando.
Napoleão Teixeira foi médico, psiquiatra, professor, especialista em Medicina Legal, jornalista e literato. Viajou por mais de setenta países, teria dominado onze idiomas e deixou uma produção jornalística extraordinária. Seu filho João Regis Fassbender Teixeira chegou a estimar em mais de vinte mil o número de crônicas publicadas no Brasil, além de mais de mil no exterior.
Era um homem de muitos caminhos.
Seu livro sobre o suicídio é um dos caminhos mais difíceis que percorreu.
Estudar o suicídio é aproximar-se de uma fronteira onde a ciência encontra seus próprios limites.
A psicopatologia procura compreender a mente.
A Medicina Legal procura interpretar as circunstâncias.
O Direito pergunta pelos limites da responsabilidade.
A filosofia pergunta pelo sentido da existência.
A literatura tenta dar palavras àquilo que, muitas vezes, permanece indizível.
É como se Napoleão tivesse colocado cinco lanternas diante de uma mesma noite.
E nenhuma delas, sozinha, fosse capaz de iluminá-la inteiramente.
Hoje sabemos que o suicídio não pode ser explicado por uma única causa. Não existe uma fórmula capaz de traduzir a complexidade de uma vida humana em uma resposta definitiva.
Há sofrimento psíquico, circunstâncias sociais, perdas, conflitos, vulnerabilidades, acontecimentos inesperados e dimensões existenciais que podem se entrelaçar de maneiras que nem sempre conseguimos perceber.
A grande lição que podemos retirar de um livro escrito em meados do século XX seja justamente a necessidade de olhar o ser humano em sua inteireza.
Por trás de uma estatística existe uma pessoa.
Por trás de uma notícia existe uma história.
Por trás de uma carta existe uma vida.
E por trás de uma vida existem afetos, sonhos, medos, lembranças e silêncios que jamais conheceremos completamente.
Napoleão Lyrio Teixeira morreu em Curitiba, em 14 de maio de 1978.
Mas seu livro persiste.
E, tantos anos depois, ele volta a abrir suas páginas diante de nós, justamente quando a memória de Alex nos faz pensar sobre a fragilidade da existência.
É estranho o destino dos livros: permanecerem silenciosos durante anos, até que um acontecimento da vida venha novamente despertá-los.
O livro de Napoleão não nos oferece uma resposta definitiva.
Nenhum livro pode oferecer.
Ele nos oferece algo mais importante: uma pergunta.
O que acontece quando alguém deixa de enxergar um caminho possível para continuar?
E essa pergunta nos conduz, inevitavelmente, para outra:
o que podemos fazer para que a pessoa encontre esse caminho antes que seja tarde demais?
Essa é a reflexão sobre o suicídio que deixa de ser apenas uma reflexão sobre a morte.
E passe a ser uma defesa da vida.
A vida que pede escuta.
A vida que precisa de presença.
A vida que, às vezes, não consegue dizer claramente que está sofrendo.
A vida que pode esconder uma tempestade atrás de um sorriso.
A vida de Alex.
A vida de tantos outros.
Diante do túmulo, segurando a alça daquele caixão pesado, eu não carregava apenas um corpo. Carregava a perplexidade de quem perdeu alguém que lhe tratara bem. Carregava a tristeza dos que ficaram. Carregava perguntas para as quais talvez nunca exista resposta.
Hoje, olhando para o velho livro de Napoleão Lyrio Teixeira na biblioteca de meu pai, percebo que há uma ponte invisível entre aquelas páginas e aquela sepultura.
Napoleão se debruçou sobre o abismo para tentar compreendê-lo.
Nós, diante da perda de Alex, somos chamados a fazer o movimento contrário:
debruçar-nos sobre a vida.
Escutá-la.
Cuidá-la.
Ampará-la.
Estender a mão.
A maior homenagem que podemos prestar aos que partiram seja aprender a enxergar melhor os que ainda estão conosco.
E porque, diante do mistério da morte, a nossa resposta mais humana continuará sendo a defesa incansável da vida.
Alex permanecerá na memória daqueles que o conheceram.
Não pelo modo como partiu.
Mas pelo modo como passou por nossas vidas.
E existem pessoas que, mesmo depois de partir, continuam caminhando conosco.
Em silêncio.
Na lembrança.
No afeto.
Para sempre.


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