Cinquenta anos de fé, serviço e amor
A celebração do Imaculado Coração de Maria e São Miguel Arcanjo, pertence a duas dimensões: tem dia, altar, flores, cânticos e orações, mas possui também uma geografia secreta. Acontece naquele lugar invisível da alma onde depositamos nossas dores, nossas esperanças e tudo aquilo que, muitas vezes, não conseguimos dizer.
E neste ano a celebração possui um significado ainda mais profundo.
Há cinquenta anos, no dia 22 de agosto de 1976, nascia em Bom Jesus do Itabapoana o Instituto Imaculado Coração de Maria e São Miguel Arcanjo, no seio do Abrigo dos Idosos José Lima. Ali começava uma história que atravessaria meio século, conduzida pela fé e pelo desejo de servir.
Na origem dessa caminhada estão Monsenhor Francisco Apoliano e Madre Virgínia Alves, fundadores do Instituto. Dois nomes que pertencem não apenas à memória de uma instituição, mas à história de uma obra construída sobre os alicerces da espiritualidade, da caridade e do cuidado com o próximo.
Eles não poderiam contemplar, naquele distante 1976, todos os caminhos que nasceriam daquele primeiro gesto. Quem planta uma árvore raramente conhece todas as pessoas que um dia descansarão sob sua sombra.
Monsenhor Francisco Apoliano e Madre Virgínia plantaram.
O tempo cuidou de fazer crescer.
E agora, cinquenta anos depois, chega o aniversário de ouro.
O ouro, porém, não está apenas na data. Está nas vidas tocadas ao longo do caminho. Está nas religiosas que chegaram jovens e envelheceram servindo; nas orações pronunciadas quando ninguém mais estava ouvindo; nos corredores percorridos silenciosamente; nas lágrimas enxugadas; nos idosos acolhidos; nas mãos seguradas; nas vocações descobertas e nas incontáveis manhãs em que alguém simplesmente decidiu continuar.
Cinquenta anos não cabem numa fotografia.
Diante da imagem de Maria, cercada pelas religiosas, parece haver um instante em que o tempo diminui seus passos. As flores deixam de ser apenas flores. As mãos postas deixam de ser apenas um gesto. Os olhos voltados para a Mãe tornam-se pequenas janelas abertas para o infinito.
É isso que o coração de uma mãe representa: um lugar onde sempre podemos voltar.
Maria conheceu a alegria, mas conheceu também a aflição. Guardou no coração palavras que não compreendia inteiramente, acompanhou o Filho pelos caminhos da esperança e permaneceu perto dele quando quase todos haviam partido. Seu coração não foi preservado da dor. Tornou-se sagrado porque soube transformar a dor em amor, a incerteza em confiança e o sofrimento em continuidade.
Por isso, contemplar o Imaculado Coração de Maria é contemplar também a misteriosa força daqueles que amam sem abandonar.
É assim que uma instituição atravessa meio século.
Não apenas pelas paredes que construiu ou pelas datas que registrou, mas pelo bem invisível que deixou no caminho.
Ninguém consegue contabilizar quantas pessoas foram consoladas nesses cinquenta anos. Nem quantas encontraram esperança numa palavra, numa oração, num sorriso ou simplesmente na presença silenciosa de uma religiosa.
Existem obras humanas que podem ser medidas em números.
As obras do amor, não.
Elas continuam acontecendo muito depois do gesto que lhes deu origem.
Por isso, diante das religiosas reunidas ao redor da imagem de Maria, compreendemos que aquela fotografia registra mais do que uma solenidade. Registra uma linhagem de fidelidade iniciada há meio século. Mulheres diferentes, histórias diferentes, idades diferentes, reunidas pelo mesmo chamado e sob o mesmo olhar materno.
Algumas daquelas mãos seguraram muitas outras mãos ao longo da vida.
Alguns daqueles olhos já choraram despedidas que jamais conheceremos.
E, no entanto, permanecem ali.
Rezando.
Servindo.
Esperando.
Amando.
No mundo apressado em que vivemos, permanecer fiel durante décadas tornou-se quase uma forma de resistência.
Por esse motivo, o Jubileu de Ouro do Instituto Imaculado Coração de Maria e São Miguel Arcanjo tem uma beleza ainda maior. Ele nos recorda que, em 1976, no seio do Abrigo dos Idosos José Lima, uma pequena semente foi lançada à terra de Bom Jesus do Itabapoana.
Passaram-se cinquenta anos.
A semente tornou-se história.
Ao centro permanece Maria.
Não como quem deseja ser o centro, mas justamente como aquela que aponta para além de si mesma.
Para Cristo.
Quando a festa terminar, as flores um dia murcharão. Os cânticos cessarão. As luzes do altar serão apagadas e cada religiosa retornará aos pequenos deveres cotidianos.
Mas alguma coisa permanecerá.
Permanecerá a memória de Monsenhor Francisco Apoliano e Madre Virgínia Alves.
Permanecerão as religiosas que escreveram e continuam escrevendo essa história.
Permanecerão as vidas que receberam cuidado e esperança.
E permanecerá aquela pequena chama acesa em Bom Jesus do Itabapoana no distante ano de 1976.
Que o Imaculado Coração de Maria continue sendo morada para aqueles que procuram consolo, escola para aqueles que desejam aprender a amar e refúgio para aqueles que atravessam as noites difíceis da existência.
E que São Miguel Arcanjo continue guardando os caminhos dessa obra nascida para servir.
Hoje, portanto, não celebramos apenas cinquenta anos.
Celebramos cinquenta anos de mãos estendidas.
Cinquenta anos de oração.
Cinquenta anos de fidelidade.
Cinquenta anos de amor.
1976–2026.
Um aniversário de ouro.
Algumas histórias são escritas com tinta.
Outras são escritas com o coração e fé, e essas o tempo jamais consegue apagar.


Nenhum comentário:
Postar um comentário