A noite de 14 de agosto, no Auditório do Colégio Estadual Padre Mello, durante a Sessão Solene da Câmara Municipal, foi daquelas que a história pareceu levantar-se das páginas e caminhar entre nós e receber, sob as luzes de um auditório, o reconhecimento de uma comunidade.
Integrando as celebrações da tradicional Festa de Agosto, a Câmara entregou, entre várias honrarias, os Títulos de Cidadão Bonjesuense a três pessoas que, por caminhos diferentes, construíram vínculos profundos com Bom Jesus do Itabapoana: o açoriano Francisco Amaro Borba Gonçalves, o pesquisador Dr. Márcio de Lima Pacheco e Alessandra Ribeiro de Abreu, açordescendente e dedicada à cultura e às letras.
Mas havia, naquela noite, um fio invisível unindo os homenageados: a presença açoriana na história, na cultura e na memória de Bom Jesus.
Francisco Amaro é daqueles homens que carregam uma terra dentro de si. Açoriano de origem, fez de sua ligação com Bom Jesus uma ponte entre mundos. Foi responsável por divulgar o nome de nossa cidade na Casa dos Açores do Rio de Janeiro e nos próprios Açores, levando para além-mar a memória, a cultura e os vínculos que aproximam o arquipélago açoriano de nossa terra.
Receber o título de cidadão bonjesuense foi, portanto, mais do que homenagear um homem. Foi reconhecer uma ponte construída entre Bom Jesus e os Açores.
Ao lado dele, estava o Dr. Márcio de Lima Pacheco, representado pelo dr Gino Martins Borges Bastos, pesquisador que mergulhou profundamente na vida e na obra de Padre Antônio Francisco de Mello, uma das figuras mais extraordinárias da história cultural bonjesuense e também um filho da tradição açoriana.
Márcio prepara três livros sobre a vida e a obra de Padre Mello, e um deles deverá chegar ao público ainda este ano. Será uma contribuição preciosa para que novas gerações conheçam melhor o homem que ajudou a projetar Bom Jesus no campo da cultura e da civilização.
Há algo de profundamente simbólico nisso: enquanto Francisco Amaro levou Bom Jesus aos Açores, Márcio se dedica a trazer para as novas gerações a memória de um dos grandes personagens açorianos ligados à formação cultural de nossa cidade.
E havia ainda Alessandra Ribeiro de Abreu, açordescendente e uma das pessoas que vêm ajudando a movimentar a vida literária e cultural bonjesuense por meio da organização das feiras literárias. Impossibilitada de estar presente, foi representada por Erica Aparecida Pimentel Borges de Abreu.
Três histórias. Três caminhos. Um mesmo sentimento de pertencimento.
Os títulos foram de autoria do vereador Clerinho da Soledade, que também apresentou o projeto que instituiu o Dia Municipal do Imigrante Açoriano. Há, portanto, uma coerência bonita entre o gesto de homenagear pessoas e o esforço de preservar uma memória coletiva.
Ess é justamente uma das grandes funções de uma Câmara Municipal quando concede uma honraria dessa natureza: reconhecer publicamente aqueles que contribuíram para a comunidade e fortalecer os vínculos entre essas pessoas e o Município.
O Título de Cidadão Bonjesuense tem uma força que ultrapassa o papel. É como se a cidade dissesse ao homenageado:
“Você não nasceu aqui, mas esta cidade também passou a morar em você, e nós reconhecemos isso.”
Nessa noite de agosto, Bom Jesus fez isso especialmente com três pessoas.
E, ao fazê-lo, disse algo ainda maior: que uma cidade não é formada apenas por suas ruas, suas praças e seus edifícios. Uma cidade é também aquilo que escolhe lembrar.
E Bom Jesus escolheu lembrar os Açores.
Escolheu lembrar Padre Mello.
Escolheu lembrar aqueles que fizeram da cultura uma ponte entre passado e futuro.
Por isso, a Sessão Solene do dia 14 de agosto não foi apenas uma cerimônia de entrega de títulos.
Foi uma noite em que Bom Jesus reconheceu seus filhos por escolha, seus amigos por afeto e sua história por gratidão.
E, no meio de tantas homenagens, uma presença se fez especialmente bonita: a presença açoriana, silenciosa como a saudade que atravessa o Atlântico, mas forte como as raízes que, há gerações, permanecem fincadas nesta terra.
Nessa noite, os Açores estavam em Bom Jesus.
E Bom Jesus, de algum modo, também estava nos Açores.
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