O maior fracasso não é morrer sem realizar um sonho. É realizá-lo e descobrir que, para chegar até ele, perdemos a nós mesmos
Diante do apartamento, ela começou a enxergar não aquilo que possuía, mas aquilo que lhe faltava. Faltava-lhe caráter
Comprou o apartamento, mas não comprou a paz nem a si mesma
Ela percebeu, tarde demais, que passara a vida inteira construindo um patrimônio sem construir a própria alma
Ela comprou um apartamento na Cidade Maravilhosa.
Durante muitos anos, aquele sonho morou silenciosamente dentro dela. Era um desejo simples, quase uma promessa feita a si mesma: um dia teria um lugar seu no Rio de Janeiro, um pequeno pedaço da Cidade Maravilhosa onde pudesse contemplar o mar, as montanhas, as luzes da noite e sentir que, afinal, havia chegado a algum lugar.
Trabalhou para isso.
Guardou dinheiro, adiou vontades, economizou alegrias. E, quando veio a aposentadoria, continuou alimentando o mesmo propósito. Até que, finalmente, conseguiu.
Comprou um belo apartamento.
No primeiro instante, houve festa dentro do coração. A chave nas mãos parecia pesar menos que a vida inteira de sacrifícios que a havia colocado ali. Ela olhou para as paredes, para as janelas, para a paisagem e talvez tenha pensado:
- Agora, enfim, consegui.
Mas alguma coisa estranha começou a acontecer.
Depois da conquista, veio o silêncio.
Enquanto existia um sonho a perseguir, havia nela uma força. Levantava-se todos os dias movida por um propósito. O futuro lhe dava energia. A esperança mantinha acesa uma espécie de chama interior.
Mas o sonho foi realizado.
E, quando o sonho deixou de ser futuro, aquelas forças começaram a desaparecer.
O apartamento estava ali.
Mas alguma coisa dentro dela estava vazia.
Foi então que uma angústia antiga, até aquele momento escondida sob o ruído do trabalho, começou a bater à porta da consciência.
Ela percebeu, tarde demais, que passara a vida inteira construindo um patrimônio sem construir a própria alma.
Havia trabalhado muito para ter uma casa, mas pouco para ter um coração.
Economizara dinheiro, mas desperdiçara desenvolver a capacidade de afetos.
Acumulara recursos, deixou escapar a generosidade.
Aprendera a conquistar coisas, mas não aprendera a se preocupar e cuidar de pessoas.
E o apartamento, que deveria ser o símbolo da vitória, tornou-se um espelho.
Diante dele, ela começou a enxergar não aquilo que possuía, mas aquilo que lhe faltava.
Faltava-lhe um caráter e uma história de afeto.
Faltava-lhe, sobretudo, a sensação de ter se tornado uma pessoa melhor enquanto lutava para ter uma vida melhor.
E essa é uma das mais silenciosas tragédias humanas:
passar a vida inteira correndo atrás de alguma coisa e descobrir, ao alcançá-la, que era de si mesmo que se estava afastando.
Ela comprou o apartamento.
Mas não comprou a paz.
Conquistou a paisagem da Cidade Maravilhosa, mas não conseguiu encontrar beleza dentro de si.
Tinha uma bela sala, mas poucos abraços.
Tinha janelas abertas para o Rio, mas as portas do coração ficaram fechadas.
Existe uma tristeza que nenhum imóvel poderia remediar, patrimônios que se constroem com dinheiro e outros que só poderiam ser construídos com tempo e caráter.
O dinheiro pode comprar um apartamento.
Não pode comprar uma vida.
Pode oferecer paredes, mas não pertencimento.
Pode dar conforto, mas não sentido.
Pode entregar uma chave, mas não abrir a porta da alma.
E é isso que mais dói.
Ela havia chegado ao lugar que tanto desejara.
Só não sabia mais quem era a pessoa que havia chegado.
O apartamento estava pronto.
A vida, porém, ficou para trás.
E, diante da janela, contemplando o Rio de Janeiro iluminado, ela descobriu a amarga verdade que ninguém lhe havia contado:
o maior fracasso não é morrer sem realizar um sonho.
É realizá-lo e descobrir que, para chegar até ele, esquecemos de construir caráter.

Nenhum comentário:
Postar um comentário