sexta-feira, 21 de agosto de 2026

Boanerges: o homem por trás da fotografia

 


Uma fotografia histórica, enviada ao jornal O Norte Fluminense por seu neto, Badger Silveira Filho, devolve à memória de Bom Jesus do Itabapoana a figura de Boanerges Borges da Silveira, homem de seu tempo, fazendeiro, político e patriarca de uma família que deixaria profundas marcas na história do município, do Estado do Rio de Janeiro e do Brasil.

A imagem de Boanerges Borges da Silveira é uma dessas fotografias que abrem uma janela para o passado.

Em preto e branco, ele surge junto à parede de uma antiga construção, com os óculos sobre o rosto, a camisa clara, as mãos próximas ao corpo e o olhar aparentemente perdido em algum pensamento. Ao fundo, uma casa silenciosa, um jardim, árvores e a arquitetura rural de um tempo que já não existe. A fotografia não revela apenas um homem. Revela uma época.

É como se, por alguns segundos, o passado voltasse a respirar.

Boanerges era filho de Antônio Ignácio da Silveira e Maria Borges da Silveira. Seu pai, filho do açoriano Manuel Ignácio da Silveira,  chegara a Bom Jesus no final do século XIX, trazendo consigo, além de algum dinheiro, uma viola de arame que havia recebido do próprio pai, Manuel Ignácio Silveira. A viola acompanharia Antônio Ignácio nas reuniões festivas, onde a música se misturava à sociabilidade, às conversas e às histórias de uma comunidade que ainda construía sua identidade.

Também havia nele uma vocação política.

Antônio Ignácio participou ativamente da luta pela primeira emancipação de Bom Jesus do Itabapoana, ocorrida em 25 de dezembro de 1890. Essa disposição para a vida pública atravessaria gerações e chegaria a Boanerges.

Na juventude, Boanerges, sob a influência do farmacêutico Pedro Gonçalves da Silva, o popular seu Pedroca - presidente da Intendência em 1890 - e de João Catarina Júnior, fazendeiro em Pirapetinga de Bom Jesus e vereador em Itaperuna, aproximou-se da política e tornou-se entusiasmado cabo eleitoral de Nilo Peçanha. Aprendeu, como tantos homens daquela época, as delicadas artes da política interiorana,  feita de conversas, visitas, alianças, compromissos e, sobretudo, presença.

Antes mesmo de ocupar um cargo político, recebeu uma missão memorável dos chefes locais: subir ao palanque em Itaperuna para receber o então candidato ao governo, Nilo Peçanha.

De volta a Bom Jesus, subiria pela primeira vez a um palanque e pediria a palavra ao povo.

Era o início de uma trajetória que ajudaria a escrever um dos capítulos mais importantes da política fluminense.

Mas antes do homem público havia o homem da terra.

Boanerges foi proprietário de três importantes propriedades rurais em Calheiros: a Fazenda do Meio, o Sítio Rio Preto e, posteriormente, a grande Fazenda São Tomé.

A história da Fazenda do Meio, entretanto, começa antes dele.

Joaquim Teixeira de Siqueira Reis casou-se com Felicíssima Teixeira, a Ciça. Tiveram dois filhos: Maria do Carmo Teixeira, a Biluca, e João Teixeira de Siqueira, o Tote. Com a morte de Joaquim, a propriedade da família foi dividida entre os dois filhos. Daí teria surgido o nome Fazenda do Meio, embora outra versão sustente que a denominação se devia à sua localização, entre Barra do Pirapetinga e Calheiros.

Biluca acabaria se tornando esposa de Boanerges.

O romance, porém, não nasceu sem obstáculos.

Duarte Vieira Fraga, padrasto de Biluca, administrador da fazenda e homem de temperamento firme, não aprovava a aproximação. Boanerges chegou a seguir para o Rio de Janeiro, ingressou na Faculdade de Engenharia, abandonou os estudos, trabalhou em tipografia e depois em uma gráfica. Mais tarde, conseguiu emprego público e retornou a Calheiros, já decidido a pedir a mão de Biluca.

Depois de muita insistência, Duarte finalmente consentiu.

E fez mais.

Organizou, por ocasião do casamento, uma das maiores festas já vistas em Bom Jesus. O gesto tinha um significado especial: queria mostrar que Biluca não era uma órfã desprotegida. A partir daquele dia, ela passou a chamá-lo de pai.

No dia seguinte à festa, quando Boanerges se preparava para voltar ao Rio com a mulher, Duarte o chamou.

A terra, explicou, já não era somente de Biluca. Era também dele.

E, como agora Boanerges era proprietário, não poderia simplesmente abandonar a fazenda.

O jovem casal acabou ficando.

A história de Bom Jesus mudou naquele momento.

A Fazenda do Meio seria posteriormente vendida a Marciano Domingues, conhecido como Pai Eta, que negociava café com Boanerges. A venda foi feita “com porteira fechada”, levando consigo não apenas a terra, mas os objetos, móveis e lembranças que faziam parte daquela vida.

Entre esses objetos estava um guarda-roupa que pertenceu a Boanerges e Biluca. Décadas depois, ele retornaria à memória da família Silveira por intermédio de Atalíbia Boechat, que o permutou com a Associação dos Amigos do Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira. Hoje, pertence ao Memorial.

É assim que a história sobrevive.

Nem sempre em grandes monumentos.

Às vezes, ela permanece dentro de um móvel antigo.

Em uma fotografia.

Em uma carta.

Em uma viola.

Ou na lembrança contada por uma filha, transmitida a uma neta, e finalmente registrada nas páginas de um jornal.

Boanerges também foi proprietário da grande  Fazenda São Tomé, onde o caxambu, manifestação cultural profundamente ligada à tradição afro-brasileira, era praticado e estimulado. Ali, a terra não era apenas espaço de produção. Era também lugar de encontro, música, dança e memória.

E havia ainda a Casa da Farinha.

O lugar carregava uma importância especial para a família. Foi naquela propriedade que Antônio Ignácio da Silveira se instalou quando chegou a Bom Jesus, atraído pelas terras férteis da região e pelo movimento de famílias, entre elas muitos açorianos, que ajudaram a construir a história local.

A casa era, portanto, mais do que uma construção.

Era um marco de origem.

Um elo entre o imigrante açoriano, a família Silveira, a formação de Bom Jesus e a trajetória política que, algumas décadas depois, levaria seus descendentes ao governo do Estado.

Boanerges seria pai de Roberto e Badger Silveira, dois nomes que entrariam definitivamente para a história política fluminense. Pai também de Zequinha, Dinah e Maria da Penha. Roberto, em especial, caminhando para a presidência do país, construiria uma trajetória de extraordinária projeção, interrompida tragicamente quando sua caminhada ainda parecia apontar para voos nacionais ainda maiores. Badger, que seguia os passos de Roberto, foi cassado pelo regime militar. Zequinha Silveira, brilhante deputado federal pelo Paraná, resolveu abandonar a política após a morte do irmão.

Mas toda grande trajetória política começa muito antes dos palácios e dos cargos.

Começa numa casa.

Numa fazenda.

Numa conversa.

Num palanque improvisado.

Num homem que aprende a ouvir o povo.

E é isso que a fotografia enviada por Badger Silveira Filho ao O Norte Fluminense nos permite compreender.

Boanerges aparece sozinho na imagem, mas não está sozinho na história.

Atrás dele estão avós, os pais, os filhos, os netos, bisnetos, trinetos, a esposa, os amigos, os companheiros de política, os trabalhadores das fazendas, os músicos do caxambu, os agricultores, os homens e mulheres que ajudaram a formar a comunidade bonjesuense.

Atrás dele está uma Bom Jesus que já não podemos tocar.

A casa ao fundo permanece silenciosa. As árvores cresceram, envelheceram e talvez tenham desaparecido. As pessoas da fotografia partiram. As propriedades mudaram de donos. A Casa da Farinha, lamentavelmente, também desapareceu, depois que uma tempestade provocou o desabamento parcial de seu teto e o prédio histórico acabou demolido.

Mas a memória é teimosa.

Ela se recusa a morrer.

E agora, muitos anos depois, Boanerges volta a nos olhar através de uma fotografia em preto e branco.

Não sabemos exatamente o que pensava naquele instante.

Talvez estivesse apenas esperando alguém.

Talvez conversasse sobre a fazenda.

Talvez planejasse uma viagem.

Talvez pensasse na política.

Ou simplesmente contemplasse, em silêncio, a vida que passava diante de seus olhos.

Nós, que chegamos depois, é que sabemos o que veio a seguir.

Sabemos que daquele homem nasceriam histórias, famílias, governos e páginas inteiras da memória política fluminense.

E sabemos também que a história de uma cidade não está somente nos livros.

Está nas fotografias guardadas em gavetas.

Nos móveis antigos.

Nas casas que resistem.

Nas casas que desapareceram.

Nas vozes dos mais velhos.

E nas mãos daqueles que, como Badger Silveira Filho, sabem que preservar uma fotografia é, muitas vezes, salvar do esquecimento um pedaço inteiro de uma cidade.

Hoje, ao publicar esta imagem, O Norte Fluminense não apenas recorda Boanerges Borges da Silveira. Reabre uma janela para uma Bom Jesus de outros tempos, uma cidade de fazendas, viola de arame, caxambu, política, sonhos e homens que ajudaram a construir, com suas virtudes e contradições, a história do lugar.

Uma fotografia antiga não é apenas uma lembrança.

É uma espécie de relógio parado.

E basta contemplá-la com atenção para ouvir, outra vez, os passos do passado.

Guarda-roupa de Boanerges e Biluca abriga o terno de seu neto Roberto Silveira, no Memorial Governadores Roberto e Badger Silveira 


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