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José Fernando Silveira, filho do ex-governador Badger Silveira, é um desses homens que gostam de contar histórias, como sua irmã, Ana Maria.
No seu caso, porém, suas histórias chegam quase sempre por meio de áudios memoráveis, nos quais a voz se transforma em uma espécie de ponte entre o presente e o passado.
O último deles nasceu de uma fotografia que registra um instante e misteriosamente muito mais. Lembra histórias que guardam vozes, gestos e afetos que o tempo parecia ter escondido.
A imagem de seu avô, Boanerges Borges da Silveira, publicada a partir da foto enviada ao O Norte Fluminense por seu irmão, Badger Silveira Filho, despertou em Fernando uma surpresa: ele não conhecia aquela fotografia.
Mas conhecia o homem que nela habitava.
E, ao reencontrar o rosto do avô, reencontrou também uma história de infância.
Com o bom humor que lhe é peculiar, Fernando recordou uma das histórias que Boanerges contava aos netos sobre uma fazenda com uma imensidão de cabeças de gado. Certa vez, choveu tanto que as águas começaram a atingir parte do corpo dos animais. Foi preciso, então, transferi-los para outra área, atravessando uma ponte.
E aí começava a espera das crianças pelo desfecho.
Fernando aguardava, curioso, o momento em que o avô concluiria a narrativa. Mas Boanerges dizia apenas que o gado continuava sendo transferido pela ponte.
A história ficava sem fim.
E, na visita seguinte, diante da expectativa dos netos, ela recomeçava, ou melhor, continuava. O gado ainda estava sendo levado pela ponte.
Talvez Boanerges soubesse, intuitivamente, que algumas histórias não precisam terminar. Precisam apenas permanecer.
Fernando também se lembrou de Biluca, sua avó. Recordou o modo carinhoso com que tratava os netos, especialmente a maneira como segurava suas mãos, acariciando-as enquanto os olhava nos olhos. Recordou a voz cativante, os olhos amendoados e aquele gesto de afeto que permaneceu gravado em sua memória.
A partir dessas lembranças, Fernando fez uma reflexão pessoal sobre possíveis traços indígenas na avó. Não como uma afirmação histórica, mas como uma leitura afetiva dos gestos que recebeu dela e que nunca esqueceu.
Ele associa o modo de segurar e acariciar a mão das crianças a uma ancestralidade indígena; lembra os italianos, com suas mãos que acompanham e enriquecem a fala; e observa ainda outros modos culturais de tocar a mão e levá-la ao rosto como expressão de afeto, saudade ou reconhecimento.
É neste momento que a memória se torna mais bonita: quando deixa de ser apenas lembrança e passa a ser interpretação, sentimento, tentativa de compreender de onde vieram os gestos que nos formaram.
Tudo isso nasceu de uma fotografia.
Uma fotografia de Boanerges, enviada por Badger Silveira Filho ao O Norte Fluminense, fez Fernando voltar à infância. E, ao voltar à infância, ele reencontrou o avô, a avó, os irmãos, a fazenda, o gado atravessando a ponte e aquelas histórias que pareciam não ter fim.
A história, afinal, se repete diante de nossos olhos de maneira quase mágica.
Repete-se quando uma fotografia desperta uma voz.
Quando uma voz desperta uma lembrança.
Quando uma lembrança devolve um gesto.
E quando o afeto, testemunhado por alguém, impede que o tempo leve embora aquilo que realmente importa.
Há memórias que não envelhecem.
Elas apenas esperam uma fotografia, uma voz ou uma história para voltar a viver.


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