quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

A primeira avenida de Bom Jesus e o Desenho do Futuro Urbano de Bom Jesus do Itabapoana por Padre Mello

 

Primeiro mapa de Bom Jesus foi confeccionado por Padre Mello em 1940 (Acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos, doado por Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas)

As contribuições do Padre Mello para a cartografia de Bom Jesus do Itabapoana permanecem como um dos capítulos mais sólidos da história urbana do município. Seus mapas não são apenas relíquias: continuam a servir de referência para historiadores, arquitetos e urbanistas que buscam compreender como a cidade foi pensada, e não simplesmente ocupada.

Mais do que desenhar ruas, ele projetou o crescimento.

O mapa de 1940: um marco documental

Entre os documentos preservados no Espaço Cultural Luciano Bastos (ECLB), destaca-se o mapa datado de 15 de março de 1940,  uma peça histórica de notável precisão técnica.

Elaborado com base em medições realizadas com seu teodolito, o documento delimita áreas urbanas e divisas de grandes fazendas, oferecendo um retrato fiel da organização territorial do período.

Mais do que registro, o mapa foi instrumento de gestão pública. Às vésperas das celebrações do centenário da cidade, em 1942, ele forneceu base concreta para o planejamento de estradas e infraestrutura rural, consolidando um ordenamento que dialogava com o futuro.

A primeira avenida e a disputa do nome

A influência de Padre Mello no traçado urbano tornou-se literal na concepção da primeira grande avenida da cidade,  hoje conhecida como Avenida Padre Mello.

O projeto previa uma via mais larga e alinhada que as ruas estreitas então predominantes, antecipando o aumento do tráfego e a expansão urbana. Visionário, o sacerdote desejava chamá-la “Avenida da Mocidade”, expressão de esperança no porvir.

Entretanto, uma disputa na imprensa local, liderada pelo jornalista Silvio Fontoura,  levou à consagração popular de seu próprio nome. Em gesto de humildade, ele resistiu à homenagem, mas a vontade coletiva prevaleceu. Hoje, a avenida é uma das principais artérias da cidade, abrigando inclusive a Secretaria de Cultura e sendo ponto de proximidade com o próprio ECLB.

O coração urbano: praça e matriz

Raul Travassos, um dos gênios de nossa cultura, sempre pontuou, cotejando fotos de épocas antigas,  a respeito do rebaixamento da praça Governador Portela. Hoje, as pesquisas trazem luz sobre esse rebaixamento. No desenho do centro histórico, Padre Mello consolidou o Largo da Matriz como ponto mais alto e irradiador do traçado urbano. Ali, fé e geografia se encontram.

A partir desse eixo monumental, que dialoga com a atual Praça Governador Portela, as ruas foram organizadas de forma lógica e integrada. A igreja não permaneceria isolada: estaria conectada ao comércio e às residências, criando fluxo contínuo e definindo o centro vital da cidade até os dias de hoje.

Cadernos de geografia viva

Além dos mapas oficiais, sobrevivem cadernos técnicos que funcionam como verdadeiro diário geográfico da região. Neles, encontram-se medições das margens e profundidades do Rio Itabapoana, anotações destinadas à prevenção de cheias e registros que ajudaram a fixar a toponímia local, muitos nomes ainda oficialmente utilizados.

O mapa de Padre Mello é, em essência, a certidão de nascimento do ordenamento urbano de Bom Jesus do Itabapoana. Impressiona que um homem dedicado ao altar tenha exercido, com igual rigor, o papel de agrimensor e planejador.

No meio da fé e cálculo, ele desenhou não apenas ruas e divisas,  desenhou o futuro físico de uma cidade inteira.

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