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| Primeiro mapa de Bom Jesus foi confeccionado por Padre Mello em 1940 (Acervo do Espaço Cultural Luciano Bastos, doado por Elcio Xavier, o Príncipe dos Poetas) |
As contribuições do Padre Mello para a cartografia de Bom Jesus do Itabapoana permanecem como um dos capítulos mais sólidos da história urbana do município. Seus mapas não são apenas relíquias: continuam a servir de referência para historiadores, arquitetos e urbanistas que buscam compreender como a cidade foi pensada, e não simplesmente ocupada.
Mais do que desenhar ruas, ele projetou o crescimento.
O mapa de 1940: um marco documental
Entre os documentos preservados no Espaço Cultural Luciano Bastos (ECLB), destaca-se o mapa datado de 15 de março de 1940, uma peça histórica de notável precisão técnica.
Elaborado com base em medições realizadas com seu teodolito, o documento delimita áreas urbanas e divisas de grandes fazendas, oferecendo um retrato fiel da organização territorial do período.
Mais do que registro, o mapa foi instrumento de gestão pública. Às vésperas das celebrações do centenário da cidade, em 1942, ele forneceu base concreta para o planejamento de estradas e infraestrutura rural, consolidando um ordenamento que dialogava com o futuro.
A primeira avenida e a disputa do nome
A influência de Padre Mello no traçado urbano tornou-se literal na concepção da primeira grande avenida da cidade, hoje conhecida como Avenida Padre Mello.
O projeto previa uma via mais larga e alinhada que as ruas estreitas então predominantes, antecipando o aumento do tráfego e a expansão urbana. Visionário, o sacerdote desejava chamá-la “Avenida da Mocidade”, expressão de esperança no porvir.
Entretanto, uma disputa na imprensa local, liderada pelo jornalista Silvio Fontoura, levou à consagração popular de seu próprio nome. Em gesto de humildade, ele resistiu à homenagem, mas a vontade coletiva prevaleceu. Hoje, a avenida é uma das principais artérias da cidade, abrigando inclusive a Secretaria de Cultura e sendo ponto de proximidade com o próprio ECLB.
O coração urbano: praça e matriz
Raul Travassos, um dos gênios de nossa cultura, sempre pontuou, cotejando fotos de épocas antigas, a respeito do rebaixamento da praça Governador Portela. Hoje, as pesquisas trazem luz sobre esse rebaixamento. No desenho do centro histórico, Padre Mello consolidou o Largo da Matriz como ponto mais alto e irradiador do traçado urbano. Ali, fé e geografia se encontram.
A partir desse eixo monumental, que dialoga com a atual Praça Governador Portela, as ruas foram organizadas de forma lógica e integrada. A igreja não permaneceria isolada: estaria conectada ao comércio e às residências, criando fluxo contínuo e definindo o centro vital da cidade até os dias de hoje.
Cadernos de geografia viva
Além dos mapas oficiais, sobrevivem cadernos técnicos que funcionam como verdadeiro diário geográfico da região. Neles, encontram-se medições das margens e profundidades do Rio Itabapoana, anotações destinadas à prevenção de cheias e registros que ajudaram a fixar a toponímia local, muitos nomes ainda oficialmente utilizados.
O mapa de Padre Mello é, em essência, a certidão de nascimento do ordenamento urbano de Bom Jesus do Itabapoana. Impressiona que um homem dedicado ao altar tenha exercido, com igual rigor, o papel de agrimensor e planejador.
No meio da fé e cálculo, ele desenhou não apenas ruas e divisas, desenhou o futuro físico de uma cidade inteira.

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