sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

O coração do clã Silveira: Renée Ferraiolo, o coração onde todos couberam, memória de Ana Maria Silveira

 


Esta é uma crônica tecida com os fios da memória de Ana Maria Silveira, uma homenagem à força e ao afeto que sustentaram o clã dos Silveira.

​O Coração Onde Couberam Todos

​Haverá, talvez, no dicionário do tempo, uma definição para o que foi ser Renée Braile Ferraiolo. Mas, para nós, que guardamos o eco de seus passos e o calor de seu abraço, ela foi, e permanece sendo,  a tradução exata do verbo acolher.

​Nascer em Resende, em 1917, sob o olhar de imigrantes italianos, deu-lhe o solo. Mas foi a alma que lhe deu o voo. Jovem, na beleza que parava o tempo, transformou-se em escudo vivo nos Campos Elíseos. Ali, diante da fúria cega que ameaçava um casal de estrangeiros, Renée não usou armas; usou o peito aberto e o imperativo da justiça. Foi nesse cenário de agitação que o destino trouxe Badger. Ele, o delegado novo que acalmava multidões com a palavra; ela, a moça corajosa que o cativou antes mesmo do primeiro "bom dia".

​O Alicerce da Rua Lopes Trovão

​Dizem que a política se faz nos palácios, mas a política dos Silveira se fazia no número 89 da Rua Lopes Trovão. Entre o cheiro do café e as discussões que entravam pela madrugada, Renée era a bússola. Quando o consenso fugia entre Badger, Roberto e Zequinha, o apelo era unânime:

"Renesinha, você que sabe tudo, qual a melhor solução?"

​Ela não apenas sabia; ela sentia. Trazia a experiência das mãos que já haviam sido tabeliãs e o instinto de quem cresceu vendo o pai, José Ferraiolo, governar com a firmeza de Getúlio ao fundo.

​Uma Mesa Sempre Posta

​A casa era um organismo vivo. Oito filhos biológicos, de José Roberto à caçula Maria Teresa,  mas a maternidade de Renée era elástica, infinita. Havia espaço para a nossa Cecinha, a filha-anjo, e o amparo constante de Vó Preta, a Idalina, que foi o elo entre as gerações e a liberdade para que Renée pudesse ser, também, a Primeira-Dama do Estado.

​E que Primeira-Dama ela foi! Sem pompa vazia, mas com a eficácia de quem sabia que governar era, acima de tudo, cuidar. Das escolas agrícolas ao lazer nos municípios, ela era a extensão do sonho que Roberto não pôde concluir, e que Badger agora carregava nos ombros.

​A Dança e a Tempestade

Badger e Renée não caminhavam apenas; eles dançavam. Cantavam a vida no cinema, no teatro, nas famosas festas juninas do sítio onde o amor era contagioso e casamentos floresciam. Todos sabem também da sua garra de leoa. No momento mais sombrio, quando o golpe militar tentou levar Badger para o desconhecido, foram as mãos de Renée que o seguraram. Foi o seu grito que mobilizou a família e a Marinha, transformando um sequestro iminente em um resgate seguro.

​O Legado do Afeto

​Hoje, ao olhar para os netos e bisnetos, para Natália, Fabio, Aline, Gabriel e tantos outros,  vemos o reflexo daquela mulher que desdenhava bens materiais, mas acumulava tesouros na alma. Badger tinha razão em sua trova: sem ela ao lado, ele se sentia "todo encabulado". Ela era o acerto, a bomba desarmada, a conta exata.

​Renée partiu em um novembro de 2005, mas deixou o mapa de um território sagrado. Como bem definiu Wagner: seu coração foi o único lugar do mundo onde, sem esforço, couberam todos.


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