quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

Os 213 Anos da Chegada dos Açorianos ao Espírito Santo e a Nomeação dos Embaixadores da Açorianidade pela CAES







Sob o céu morno e chuvoso de fevereiro, a memória atravessou o Atlântico e ancorou novamente em solo capixaba. No dia 24 de fevereiro de 2026, a Casa dos Açores do Espírito Santo celebrou os 213 anos da chegada dos imigrantes açorianos em Viana, no Espírito Santo, e não foi apenas uma data, mas um reencontro com as próprias raízes.

Era terça-feira, às 19 horas, quando o salão se encheu de vozes, cumprimentos e sobrenomes que carregam mares no som. A homenagem aos açordescendentes concedeu o título de Embaixadores da Açorianidade ao Dr. Pedro Antônio de Souza, a Eraldo Salotto de Rezende e ao Dr. Gino M. Borges Bastos, nomes que agora se entrelaçam oficialmente à história que ajudam a preservar.

A saudação aos novos Embaixadores, conduzida por Maria Dolores Pimentel, foi magnífica. Não apenas pelas palavras escolhidas, mas pelo sentimento que percorreu o ambiente. Escritora de São José do Calçado, terra de montanhas e tradições no sul capixaba, Maria Dolores levou ao púlpito mais que protocolo: levou literatura viva. Poetisa, escritora e historiadora, tem o dom de enxergar história onde muitos veem apenas datas. Sua saudação foi página aberta e verso falado, ponte entre São José do Calçado e as ilhas açorianas, unidas pelo fio invisível da cultura e da palavra.

Os novos Embaixadores agradeceram a homenagem e assumiram o compromisso de serem guardiões da açorianidade. Em momento de grande emoção, o Dr. Pedro Antônio de Souza tomou a palavra e, com a voz embargada, abriu uma janela para a própria infância. Recordou que, ainda menino, ouvira de sua mãe a revelação singela e decisiva: suas origens eram açorianas. A informação, então, foi como semente lançada ao solo da inocência. Jamais imaginaria que, na maturidade, integraria uma entidade dedicada justamente à preservação dessa herança.

E completou, com simplicidade profunda:

— É em memória de minha mãe que também estou aqui.

A frase pairou no ambiente como prece. Não era apenas declaração; era reencontro. Como se o passado tivesse atravessado o tempo para ocupar uma cadeira no salão. Compreendeu-se, então, que a açorianidade vive sobretudo na memória afetiva que une mães e filhos, gerações e destinos. Em seguida, declamou uma linda poesia da poetisa são-pedrense Maria Antonieta Tatagiba.

Presente ao memorável evento esteve Francisco Amaro, açoriano da Ilha Terceira, poeta, escritor, memorialista, cantor e compositor, apaixonado por tudo o que vem dos Açores. Pediu licença para ler palavras em homenagem aos 213 anos da chegada dos açorianos em Viana, no Espírito Santo, emocionando dois importantes nomes da cultura açoriana: João Vieira Jerônimo, reconhecido na Ilha de São Miguel como grande incentivador dos valores culturais daquela ilha onde nasceu o Padre Antônio Francisco de Mello; e a poetisa Maria Francisca Bettencourt, fundadora do Grupo da Canção Regional Terceirense, na Ilha Terceira.

Cumprimentou ainda os novos Embaixadores da Açorianidade e reconheceu a atuação do Dr. Nino Moreira Seródio, presidente da Casa dos Açores do Espírito Santo, e de sua esposa, Dra. Samira, pelo esforço e dedicação na condução da instituição.

Em seguida, apresentou uma canção. A música chegou como bruma suave. Ao violão, interpretou “Ilhas de Bruma”, e cada acorde pareceu redesenhar paisagens açorianas na imaginação dos presentes, falésias, vento salgado e o infinito azul que separa e une continentes. Em seu olhar percebia-se que a música não era apenas som, mas território. Cada nota encontrava eco em sua travessia interior, como se as ilhas fossem destino inscrito na alma.

A noite também foi de conhecimento. Foi lembrada a professora Fabiene Passamani, que apresentou sua tese de doutorado em História Social pela Universidade Federal do Espírito Santo, intitulada Dos Açores ao povoamento da Colônia de Santo Agostinho  - Viana/ES. A pesquisa revelou nuances políticas e sociais da presença açoriana na formação de Viana, reafirmando que identidade não é apenas herança: é construção contínua.

Em seguida, a “Viagem Musical” foi conduzida por José Antônio Borges Alvarenga, vice-presidente da Casa e cantor consagrado. Generoso em sua arte, possui repertório vasto, como oceano onde cada canção é ilha e cada verso, porto seguro. Sua origem açoriana transparece nos gestos: numa das mãos, a taça de vinho português erguida em brinde à memória dos antepassados; na outra, o microfone firme, transformando lembrança em canto. Sua voz, naquela noite, não apenas ecoou - navegou.

Na dedicada função de secretária, Maria Cristina Borges exerce papel essencial na engrenagem silenciosa que sustenta a instituição. Com organização e sensibilidade, transforma rotinas administrativas em alicerces firmes para que a cultura açoriana floresça.

À frente da Casa está o Dr. Nino Moreira Seródio, cuja presença serena traduz compromisso com a preservação da memória açoriana em terras capixabas. Sob sua presidência, a instituição é porto de identidade, espaço onde tradições encontram continuidade e onde o passado dialoga com o presente.

O evento reuniu diversas personalidades, entre elas o consagrado historiador capixaba Gerson França, presente a convite do Dr. Antônio Pedro de Souza. 

Na ocasião, também foram comemorados os quatro anos de fundação da Casa dos Açores do Espírito Santo, com o tradicional bolo e o canto de “Parabéns”.

TV Alcance, sob a direção de Isac Nascimento, realizou mais uma expressiva cobertura do evento, registrando os principais momentos da solenidade e contribuindo para a divulgação da cultura açoriana no Espírito Santo.

No meio de cumprimentos e memórias compartilhadas, percebia-se que aquela celebração não era apenas institucional, mas profundamente afetiva. A açorianidade ali celebrada não é apenas lembrança do que foi, é permanência, é identidade, é mar que continua a tocar a terra capixaba.
 








 










































 









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