sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

Maria Apparecida Dutra Viestel: a Historiadora de Bom Jesus (VII)

 


Quando a historiadora Maria Apparecida Dutra Viestel fala de cinema, não fala primeiro de filmes,  fala de cadeiras de madeira rangendo, de crianças bem-vestidas para a sessão noturna e do espanto coletivo diante de imagens que, pela primeira vez, se moviam dentro de uma sala escura em Bom Jesus do Itabapoana.

A história começa no início do século XX, quando seu avô, Pedro Gonçalves da Silva Jr., ligado ao movimento operário local, decidiu que cultura também precisava chegar ao interior. Instalou então o Cine Bom Jesus, vinculado ao Centro Operário, não como entretenimento puro, mas como ferramenta de formação. Ver imagens do mundo era, naquele tempo, uma forma de aprender a existir nele.

A sala ficava na esquina da rua Tenente José Teixeira com a Expedicionário Paulo Moreira, na subida para a rodoviária. Ali, por décadas, a cidade se reunia em silêncio reverente antes que a tela tremesse. Funcionou até o início dos anos 1940, período em que o cinema ainda era cerimônia: chegava-se cedo, comentava-se política na porta e, depois, a luz apagava o cotidiano.

Maria Apparecida lembra que ninguém dizia “vamos assistir a um filme”. Dizia-se apenas:

- Vamos ao cinema.

Porque ir ao cinema era ir ao encontro da própria cidade.

Em 1924, outra luz acendeu-se no município. O jornal A Cidade, guardado por seu avô e seu pai, Antônio Dutra, hoje preservado no Espaço Cultural Luciano Bastos, anunciava a programação do Cinema Íris. A novidade consolidava o hábito: não era mais um evento raro, mas parte da vida urbana nascente.

O cinema criava horários, encontros, romances e comentários no dia seguinte. O comércio ficava mais movimentado nas noites de exibição; as conversas misturavam cenas vistas na tela com acontecimentos da praça. Para muitos moradores, foi ali o primeiro contato com outros países, outras roupas, outras maneiras de falar, uma janela antes mesmo de existir televisão.

Ao registrar essas memórias, Maria Apparecida não escreve apenas sobre salas de projeção. Ela revela o instante em que Bom Jesus do Itabapoana deixou de ser apenas lugar e passou a imaginar-se cidade.

Porque, segundo ela, a verdadeira chegada do cinema não acontece quando a máquina é instalada, mas quando a população passa a sonhar em conjunto no escuro.

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