sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A saudade também precisa de um lugar para morar


 Todos os agostos, uma mãe transforma tecido, vento e palavras em uma pequena eternidade.



Todo ano, quando agosto chega, uma faixa aparece à beira da estrada.

Não é uma faixa de festa. Não anuncia comércio, não convida para eventos, não promete prêmios nem celebra conquistas.

É uma faixa de saudade.

Nela, poucas palavras dizem o que talvez nenhuma palavra consiga dizer inteiramente:

“Juninho - 20 anos de saudade.”

Ao lado, uma pequena cruz.

E a estrada continua.

A faixa é colocada sempre no mesmo lugar, numa curva da estrada. Uma curva que, curiosamente, também parece fazer parte da história. Quem passa depressa talvez consiga ler apenas um pedaço da mensagem. A curva impede que as palavras sejam vistas por completo.

Mas a saudade é assim mesmo.

Nunca conseguimos enxergá-la inteira.

Ela aparece em fagulhas: numa fotografia antiga, numa música, num cheiro, numa lembrança que chega sem pedir licença. Às vezes, basta passar por determinado lugar para que alguém que partiu volte, por alguns instantes, a caminhar conosco.

Dizem que é a mãe de Juninho quem, ano após ano, faz questão de colocar a faixa.

E há algo profundamente humano nesse gesto.

O tempo passa. O pano envelhece. A chuva desbota as letras. O vento castiga o tecido. A faixa vai se desfazendo aos poucos, como se a própria estrada tentasse apagar aquela lembrança.

Mas a mãe volta.

E coloca outra.

Porque existem dores que o tempo não apaga. Apenas ensina a carregá-las de outra maneira.

Aquela faixa é uma espécie de oração estendida sobre a estrada.

Uma oração que não pede nada.

Apenas diz:

Ele esteve aqui.

Ele foi amado.

Ele continua sendo lembrado.

Há quem possa perguntar por que tornar pública uma saudade tão particular.

Mas o amor também tem necessidade de testemunhas.

Aquela pequena cruz, perdida na paisagem, transforma a margem da estrada em um lugar de memória. E os que passam certamente não conheceram Juninho, talvez nunca tenham ouvido sua voz, talvez não saibam de sua história.

Ainda assim, durante alguns segundos, sabem que alguém foi amado profundamente.

E isso basta.

A curva permanece.

A estrada permanece.

Agosto retorna todos os anos.

E a faixa, mesmo quando rasgada pelo tempo, parece dizer que existem ausências que se recusam a desaparecer.

Algumas pessoas partem da vida, mas não partem da memória.

E esse é o sentido mais bonito daquela faixa na beira da estrada:

a saudade também precisa de um lugar para morar.

Para Juninho, esse lugar é uma curva.

E, todos os agostos, uma mãe transforma tecido, vento e palavras em uma pequena eternidade.

Um comentário:

  1. Tem-se que se apegar, a uma forma de conviver com a saudade!

    Saudações Bom-Jesuenses.

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