Em tempos de tempestadesas raízes descem mais fundo. Na vida, os momentos de crise podem nos oferecer essa oportunidade: amadurecer, rever certezas, aprender a caminhar sobre um chão que já não obedece aos nossos passos.
Mas a ventania também arranca cortinas. E, quando isso acontece, vemos o que a serenidade dos dias favoráveis mantinha escondido.
Certas pessoas atravessam os salões da convivência envoltas numa aura de esclarecimento. Falam de tolerância, celebram a razão, apresentam-se como guardiãs de uma moral situada acima das fraquezas alheias. Tudo parece firme enquanto o mundo lhes oferece o espelho desejado.
Até que uma notícia política desfavorável bate à porta.
Então, aquela voz tão segura se impacienta. O ouvido se fecha. A informação passa a ser recebida como uma ofensa, e quem a traz corre o risco de ser confundido com o responsável pelo acontecimento. Pede-se silêncio justamente onde antes se proclamava a liberdade de pensar.
O palco desaba. E, entre os destroços das frases bonitas, aparece uma dificuldade profundamente humana: suportar que a realidade não nos dê razão.
Perder nas urnas pode doer. Há sonhos, convicções e esperanças depositados numa escolha. Essa dor merece compreensão. O que nos inquieta é vê-la transformar-se em recusa de examinar os fatos, sobretudo em quem sempre exigiu dos outros lucidez e equilíbrio.
A crise ofereceu uma janela; alguém preferiu fechar a cortina.
Diante dessas cenas, registramos fatos humanos. Observamos o gesto, a palavra interrompida, a notícia que já não pode ser ouvida. E, intimamente, uma pergunta às vezes se insinua: o descontentamento nasce apenas de uma convicção ferida ou também do receio de perder vantagens esperadas junto ao lado que parecia destinado à vitória e acabou vencido?
Não conhecemos todos os quartos de uma consciência. Por isso, a pergunta deve permanecer pergunta. Há injustiça em atribuir interesses ocultos sem provas, assim como há ingenuidade em imaginar que toda indignação esteja livre deles.
O verdadeiro amadurecimento começa nesse cuidado: olhar os outros com atenção e dirigir a nós mesmos o mesmo rigor. Que notícia também nos faria fechar os ouvidos? Que certeza nossa depende demais de aplausos?
A vida continuará trazendo ventos. Alguns derrubarão cenários; outros abrirão caminhos. Depois deles, poderemos recolher as velhas máscaras ou sair, de rosto descoberto, para aprender.
É nesse instante silencioso, quando já não há plateia, que a lucidez tem a oportunidade de criar raízes.

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