sábado, 10 de outubro de 2026

Quando a saudade se veste de neve







A primeira neve chegou antes que o outono terminasse de recolher suas folhas. Naquela tarde de São Petersburgo, na Rússia, ao final do século XIX, o céu ainda guardava uma claridade dourada entre as nuvens, e os lampiões já acesos prolongavam esse brilho sobre as pedras molhadas. O inverno se aproximava devagar, pousando nos telhados, nos ombros dos passantes, nas coisas que ninguém havia pensado em proteger.

Diante da Catedral de Santo Isaac, uma mulher permaneceu imóvel. O vestido escuro roçava a neve recente, e suas mãos, abrigadas junto ao peito, pareciam guardar alguma coisa mais frágil que o próprio calor. Ao redor, as carruagens seguiam seus destinos. Os cavalos levantavam pequenas nuvens de vapor, as rodas atravessavam poças luminosas, e a cidade continuava a viver naquela pressa discreta de quem procura chegar em casa antes da noite.

Ela, porém, demorava-se.

Talvez tivesse reconhecido, no primeiro floco sobre a manga, uma tarde antiga. Uma dessas tardes que passam sem anunciar que serão inesquecíveis. Alguém caminhara ao seu lado por aquelas ruas; alguém lhe oferecera o braço, comentara o frio, sorrira sob a luz de uma janela. Na ocasião, tudo parecera simples. Só depois a ausência revelara quanto amor podia caber num gesto cotidiano.

Agora, a cúpula dourada permanecia no mesmo lugar. Os lampiões iluminavam a mesma praça. Havia até uma carruagem semelhante àquela que os levara, certa vez, por ruas cujos nomes ela já não precisava recordar. Mas faltava a voz que tornava familiar o mundo. E, diante de tanta coisa preservada, essa falta se fazia ainda mais funda.

Um floco pousou em seus cabelos. Outro desapareceu na pele de seu rosto. Ela ergueu os olhos, como se escutasse ao longe os primeiros compassos de uma música.

Naquela paisagem, a lembrança encontrava uma sonoridade próxima do lirismo de Rachmaninoff: o grave de um violoncelo para o peso da ausência, o estremecimento dos violinos para aquilo que ainda procurava dizer, uma nota de piano demorando-se no silêncio. A praça inteira parecia oferecer espaço para essa música íntima, que ninguém mais ouvia.

Houve um tempo em que ela acreditou que esqueceria. Que os dias, ocupados com pequenas tarefas, acabariam por gastar o contorno daquele rosto. Contudo, bastava uma luz refletida no chão, o ruído de rodas se afastando, a chegada inesperada do frio, e tudo voltava com uma nitidez que a surpreendia.

A neve continuou a cair. Aos poucos, cobriu as marcas deixadas pelas carruagens e suavizou as bordas das pedras. A mulher acompanhou esse lento trabalho até perceber que estava com frio. Então ajeitou a gola, desprendeu do chão a barra do vestido e deu o primeiro passo.

Levava consigo a tristeza daquela tarde, mas também a lembrança de ter sido feliz ali. Sob os lampiões, a neve brilhava por um instante antes de tocar a terra. Ela caminhou devagar, deixando atrás de si pequenas pegadas.

E, enquanto São Petersburgo se vestia de inverno, alguém que já não podia oferecer-lhe o braço voltou a acompanhá-la, no ritmo de seus passos, na luz das janelas, na música silenciosa que a memória fizera nascer.



Nota: A associação entre Sergei Rachmaninoff, o violoncelo e a neve geralmente remete à atmosfera intensamente melancólica, nostálgica e invernal que a música do compositor russo evoca, muito ligada à paisagem gélida da Rússia

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