A neve cobriu a estação devagar. Pousou sobre os trilhos, acomodou-se nos bancos e apagou os passos dos últimos passageiros. Sob a marquise, os lampiões conservaram pequenas ilhas de luz dourada. Havia frio por toda parte, mas aquele homem trouxera um violoncelo.
Sentado junto à plataforma, inclinou o rosto sobre o instrumento, como quem se aproxima para ouvir uma confidência. Depois, moveu o arco. Imaginamos a primeira nota atravessando o ar gelado, demorando-se entre as colunas, alcançando a curva onde os trilhos desaparecem. Por um instante, a estação pareceu ter alguém a quem esperar.
Existe uma voz no violoncelo que se aproxima da voz humana quando esta já não consegue falar. Seu canto guarda o peso de uma despedida, a hesitação de um reencontro, o calor de um nome pronunciado em segredo. Naquela paisagem, cada movimento do arco parecia retirar do silêncio uma lembrança que a neve não conseguiria encobrir.
Ao fundo dessa música imaginada, o piano chegaria com seu timbre velado pelo feltro. Notas discretas, próximas, como passos cuidadosos numa casa onde alguém adormeceu. Juntos, piano e violoncelo dariam abrigo à melancolia: haveria espaço para sentir saudade, para recordar um rosto, para deixar que uma ausência se sentasse ao nosso lado.
Inspirados na sensibilidade romântica de Rachmaninoff, esses adágios convidam o coração a demorar-se. Uma nota ainda vibra quando a seguinte começa a nascer. Nesse intervalo, cabe muito da nossa vida: uma tarde antiga, uma carta guardada, a mão que gostaríamos de segurar outra vez.
Olhamos os trilhos e pensamos nas pessoas que partiram. Algumas seguiram para outras cidades; outras ficaram tão distantes que só a memória conhece o caminho. Ainda assim, basta às vezes uma melodia para que voltem por alguns instantes, com a nitidez de quem acaba de chegar à plataforma.
O músico continua. A luz toca a madeira do violoncelo, e o arco vai e vem com uma paciência que comove. Ninguém está ali para aplaudir. Talvez ele toque por alguém. Ou apenas porque, naquela noite, também precisa escutar alguma coisa que lhe faça companhia.
A neve seguirá caindo depois da última nota. O homem guardará o instrumento, levantará a gola do casaco e deixará seus passos sobre a plataforma.
Mas, por algum tempo, quem passar por ali poderá imaginar que o silêncio ainda guarda um pouco de música.

NEOQAVC - LINDA CANÇÃO ❤️
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