Alguns dias passam sem deixar sequer uma pegada na alma. E há instantes que permanecem conosco por toda a vida: a mão de nossa mãe pousada sobre a nossa, uma palavra que chega quando tudo parece perdido, o abraço de alguém que demorávamos a reencontrar. O relógio registra a passagem das horas; nós guardamos o que aconteceu dentro delas.
Ao pensar sobre o valor da vida, lembramos de um jardim. Há flores que atravessam muitas estações, enquanto outras se abrem por uma única manhã. Quem se detém diante de uma delas, porém, não pergunta quanto tempo durará. Aproxima-se, contempla suas pétalas, recebe seu perfume. Naquele encontro breve, alguma coisa já se cumpriu.
Também nós podemos passar anos esperando a ocasião de viver. Guardamos a viagem para depois, adiamos uma visita, deixamos uma declaração de amor presa na garganta. Há sempre uma tarefa por terminar, uma preocupação ocupando a cadeira à nossa mesa. Quando percebemos, a tarde caiu e aquela pessoa a quem desejaríamos telefonar talvez esteja, do outro lado da distância, esperando ouvir nossa voz.
Viver bem começa, muitas vezes, nesse gesto pequeno: pegar o telefone. Sentar ao lado de alguém sem pressa. Escutar uma história que já conhecemos e descobrir, na maneira de contá-la, uma tristeza que antes nos escapava. Às vezes, é preciso tão pouco para devolver calor a um dia.
Isso não torna a vida imune à dor. Existem ausências que nos acompanham até nos momentos mais felizes. Ainda assim, podemos abrir a janela, preparar o café, cuidar de uma planta. Podemos permitir que a alegria se sente perto da saudade. O coração tem espaço para ambas, embora leve tempo para aprender a recebê-las.
Desejamos muitos anos de vida. Desejamos ver outras manhãs, acompanhar o crescimento das árvores, reencontrar os amigos, ter mais tempo junto de quem amamos. Mas desejamos também estar inteiros nesses dias: perceber a luz entrando pela casa, agradecer uma gentileza, dizer o que sentimos enquanto ainda há alguém para ouvir.
A reflexão de Sêneca nos alcança exatamente aí, diante dessa tarde comum que temos nas mãos. Ela pode ser atravessada distraidamente ou acolhida com atenção. Há uma mensagem por responder, alguém por visitar, uma beleza discreta esperando nosso olhar.
E, enquanto escrevemos, imaginamos uma casa ao entardecer. Sobre a mesa, duas xícaras. Na janela, a última claridade. Alguém chega, chama nosso nome, e nós interrompemos o que fazíamos para receber essa presença.
O tempo continua passando.
Mas estivemos ali.

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