Certos palcos permanecem dentro de nós mesmo depois que as luzes se apagam. O tempo passa, as cadeiras se esvaziam, outros ruídos ocupam a cidade, mas uma voz continua a cantar em algum lugar da memória.
Para a saudosa Maria Aparecida Borges Ebendinger, um desses lugares foi o Cine Monte Líbano.
Foi ali, segundo seu depoimento ao jornal O Norte Fluminense, que aconteceu o primeiro festival de música de uma sequência que levaria compositores e intérpretes a outros espaços de Bom Jesus do Itabapoana. O cinema, acostumado a acolher histórias projetadas numa tela, recebeu as canções de quem tinha sua própria história para contar. A cidade podia ouvir a si mesma: seus sonhos, suas inquietações, sua juventude procurando palavras e melodias.
Na lembrança de Aparecida, o Cine Monte Líbano guardou esse começo. E um começo tem sempre algo de comovente: alguém sobe ao palco trazendo uma canção que antes existia apenas dentro de casa, num caderno ou na voz de seu autor. Diante do público, aquela intimidade ganha o mundo.
Nascida em 24 de fevereiro de 1952, filha de Luís Roulando Ebendinger Ferreira, de Muriaé, e de Maria da Penha Borges Ebendinger, da Barra do Pirapetinga, Aparecida cresceu entre vínculos familiares e descobertas. Ainda menina, fazia pequenos shows com colegas. A adolescência deu maior nitidez à vocação que a infância já anunciava.
Aos 22 anos, influenciada pela prima Irmã Cândida, ingressou na vida conventual. Trabalhando com crianças e adolescentes, em escolas de Curitiba e Niterói, encontrou também espaço para fortalecer sua expressão artística. Tocava órgão e guitarra nas missas, compunha, aproximava a música da oração. Seus dedos acompanhavam aquilo que a voz desejava oferecer.
Ao longo da vida, compôs cerca de cinquenta músicas. A maioria se perdeu porque não foi guardada. Havia uma tristeza particular nessa ausência: suas melodias perdidas.
Os festivais também conheceram os obstáculos de seu tempo. Aparecida conta que letras e músicas precisavam ser entregues ao DOPS, em Campos dos Goytacazes, para avaliação e autorização. Segundo ela, duas de suas composições foram proibidas: “O Último Escravo” e outra que abordava o nordestino cabra-macho.
Antes de chegar ao público, a canção precisava atravessar uma porta onde alguém decidia o que poderia ser ouvido. Imaginamos a aflição de entregar uma letra e aguardar: ali estavam o trabalho, a sensibilidade e a coragem de quem compunha.
Ainda assim, os encontros prosseguiram. Depois do primeiro festival no Cine Monte Líbano, veio o segundo, no Olímpico, organizado por Marcus Werneck. O terceiro foi realizado pela própria Aparecida, com apoio de Janice, Maria das Graças da Silveira Gallo e de seu irmão Fausto, também compositor e participante dos festivais.
Nesse evento, realizado no Olympico, a energia acabou por volta das dez da noite e só retornou no dia seguinte. Aparecida guarda a suspeita de que o apagão tenha sido provocado para prejudicar o festival. Não há, em seu relato, comprovação dessa hipótese; há, porém, a memória dolorosa de uma festa interrompida, de vozes que ainda tinham o que cantar.
O quarto festival aconteceu no auditório do Colégio Estadual Governador Roberto Silveira. O último ocorreu na Praça Governador Portela, organizado pela diretora de Cultura Maria José Martins, durante o governo de Carlos Borges Garcia. De um palco a outro, a música foi reunindo nomes, amizades e esforços. Cada edição dependia de pessoas dispostas a transformar entusiasmo em trabalho.
Entre as composições premiadas de Aparecida está “Obsessão”. Em seus versos, ela deseja encontrar a própria aurora, ver nascer o dia e recorrer à fantasia quando faltar alegria. E pergunta:
“Mas quem é capaz de entristecer a minha alegria?”
A pergunta ficou. Atravessou os anos, as perdas de canções, os impedimentos e o silêncio que veio depois dos festivais. Havia nela uma disposição de continuar criando, mesmo quando o mundo não oferece todas as condições.
Aparecida lamenta que não tenham surgido mais pessoas interessadas em promover aqueles encontros. Ao mesmo tempo, recebia com entusiasmo a possibilidade de seu retorno. Sua lembrança traz um convite: voltar a oferecer aos compositores da cidade um lugar onde suas músicas possam encontrar ouvintes.
Ao recordar o festival do Cine Monte Líbano, percebemos quanto cabe na história de um cinema. Cabem os filmes e os espectadores, mas também as vozes locais, os primeiros aplausos, a expectativa de quem esperava sua vez de cantar. Cabem acontecimentos que nenhuma parede consegue contar sozinha e que precisam do testemunho de pessoas como Maria Aparecida.
Que essa memória acompanhe os novos caminhos do Cine Monte Líbano. Que suas cortinas voltem a se abrir também para a criação musical de Bom Jesus.
Talvez, entre as canções que ainda serão ouvidas ali, alguma tenha começado hoje, baixinho, na casa de alguém, à espera de um palco, como tantas outras esperaram um dia.
“A Busca”: a canção em que Bom Jesus se reconhece
Entre as canções que atravessaram as cortinas do Cine Monte Líbano e permaneceram na memória bonjesuense, “A Busca”, de Maria Aparecida Borges Ebendinger, ocupa um lugar especial. Tornou-se um clássico de nosso município, interpretado e premiado em vários festivais na voz inconfundível de Luis Fernando, um de nossos grandes intérpretes. Em sua interpretação, as perguntas da compositora ganhavam uma emoção que parecia alcançar, individualmente, cada pessoa da plateia.
A letra revela uma procura que ultrapassa o palco: buscar a própria vida, reencontrar a fé, descobrir a liberdade e compreender os mistérios do tempo. Até que o olhar, antes dirigido às coisas distantes, volta-se para dentro. E a canção encontra sua pergunta mais profunda:
A BUSCA
Maria Aparecida Borges Ebendinger
Quero buscar na vida a minha vida
Buscar no amor a fé perdida
Buscar na dor a liberdade
Eu, eu sempre quis saber por que
O dia finda todo dia
À mesma hora
Deixando a noite em seu lugar.
Porém ninguém
Sabia me dizer por que
E eu queria tanto saber
Das coisas tão distantes de mim
E um dia
Quando olhei pra mim
E me perguntei
Quem sou eu
Não sei
Esse “não sei” permanece suspenso, como uma nota que o silêncio não consegue apagar. Há nele a sinceridade de quem reconhece o mistério da própria existência, e transforma essa inquietação em música.
A gravação de “A Busca” foi uma produção do jornal O Norte Fluminense, que editou CDs para resgatar músicas tradicionais de Bom Jesus do Itabapoana. Ao registrar a composição de Maria Aparecida e a interpretação de Luis Fernando, o jornal preservou uma parte da alma musical de nossa terra, permitindo que novas gerações também a escutassem.
Assim, a canção continua sua viagem. O festival termina, as cortinas se fecham, os aplausos se recolhem à memória. Mas a voz permanece. E, cada vez que “A Busca” volta a soar, Bom Jesus reencontra um pouco de sua própria vida.

Nenhum comentário:
Postar um comentário