domingo, 11 de outubro de 2026

Depois da ilusão, o amanhecer

 


Naquela manhã, ele abriu a janela e percebeu que a árvore diante de sua casa havia perdido quase todas as folhas. Durante semanas, estivera tão ocupado com seus pensamentos que não acompanhara a lenta despedida do verde. Agora, os galhos nus deixavam ver um pedaço de céu que antes permanecia escondido.

Ficou ali por algum tempo. Havia recebido, na véspera, uma resposta que encerrava uma longa espera. Poucas palavras, suficientes para desfazer os planos que cultivara em silêncio. O café esfriava sobre a mesa enquanto ele tentava compreender como uma ausência podia ocupar tanto espaço.

Lembrou-se de quantas vezes dera às palavras alheias o sentido que desejava ouvir. Um gesto pequeno tornara-se promessa; um silêncio, timidez; uma distância, circunstância passageira. Com a ternura de quem prepara uma casa para alguém, havia arrumado dentro de si um lugar que nunca chegara a ser habitado.

Perceber isso doía. Doía também ter de olhar com meiguice para aquele homem que fora até ontem, tão disposto a esperar. Não quis censurá-lo. Ele fizera o que podia com sua esperança, com sua fome de afeto, com o medo de fechar uma porta cedo demais.

Sentou-se e tomou o café já frio. Pela primeira vez em muitos dias, não procurou o telefone. Escutou o rumor da rua, uma conversa na calçada, o portão do vizinho, a vida prosseguindo em seus pequenos compromissos. Tudo aquilo estivera ali durante sua espera.

Amadurecer tinha um pouco daquela árvore: perder, devagar ou de repente, o que parecia indispensável e descobrir o corpo exposto ao tempo. Os galhos guardavam as marcas das estações. Ainda assim, sustentavam os pássaros.

Ele sabia que sentiria saudade. Haveria tardes em que voltaria às mesmas lembranças, procurando alguma palavra esquecida que pudesse alterar o desfecho. Mas já havia entendido. E esse entendimento, embora triste, permitia-lhe recolher os planos espalhados, devolver a cada coisa seu tamanho, fazer espaço para os dias que viriam.

Antes de sair, abriu mais a janela. A luz alcançou a mesa, a xícara, suas mãos. Lá fora, na extremidade de um galho quase desnudo, havia um broto pequeno.

Não o tinha visto antes.

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