quarta-feira, 14 de outubro de 2026

Dirigentes da Educação alegam críticas para não conceder entrevista à TV Alcance

 

A pedagogia do “tô de mal”


Será que, para merecer uma entrevista, seria necessário assumir um compromisso de elogio permanente?



Uma feira literária deveria celebrar a palavra, o pensamento e o diálogo. Por isso, causa espanto que, justamente na FLIB, Feira Literária de Bom Jesus do Itabapoana, organizada pela Secretaria Municipal de Educação, seus dirigentes tenham se recusado a conceder entrevista à TV Alcance sob o argumento de que haviam recebido críticas do jornal O Norte Fluminense e da direção da FLICBonjê.

Eis uma curiosa lição de educação: diante da crítica, fecha-se a conversa.

A estranheza aumenta quando se considera que O Norte Fluminense divulgou a FLIB em seu blog com um texto de incentivo à participação da comunidade e de reconhecimento expresso aos organizadores. A publicação afirmou:

“A Secretaria Municipal de Educação, à frente a secretária Mônica de Fátima Bartolazi Boechat Amil, merece nossos cumprimentos pela realização dessa iniciativa, com o apoio da Prefeitura. A todos os educadores e profissionais envolvidos, nosso reconhecimento pelo trabalho de abrir caminhos para novos leitores.”

Conferir em  https://onortefluminense.blogspot.com/2026/10/bom-jesus-onde-o-futuro-aprende-ler.html

O jornal também defendeu, claramente, a união de esforços: “É momento de unirmos esforços: apoiar a FLIB e fortalecer a FLICBonjê.” E encerrou sua manifestação com um desejo que deveria aproximar todos os envolvidos: “Que saibamos cuidar desse futuro juntos.”

Portanto, o mesmo jornal que exerce seu direito de criticar também reconhece méritos, divulga a iniciativa e convida a população a apoiá-la. Aparentemente, porém, os cumprimentos publicados não foram suficientes para superar o ressentimento pelas críticas. Será que, para merecer uma entrevista, seria necessário assumir um compromisso de elogio permanente?

A TV Alcance esteve presente para registrar um acontecimento de interesse público. Se os dirigentes consideravam as críticas injustas, incompletas ou equivocadas, tinham ali uma excelente oportunidade para apresentar sua versão, esclarecer os fatos e até refutar os questionamentos. Preferiram transformar uma entrevista sobre a FLIB em um caso de melindre.

O argumento é infantil. Lembra aquela conhecida reação do recreio: “Você falou mal de mim? Então, tô de mal com você!”

No recreio, a gente compreende e orienta. Na direção de uma secretaria municipal, espera-se outra maturidade.

Também foi invocada, por um dos dirigentes, a questão do uso de imagens de crianças em publicações. A preocupação com a proteção das crianças merece ser tratada com seriedade. Mas o que impediria uma entrevista com os adultos responsáveis pela organização? Uma coisa é discutir os cuidados com as imagens; outra é explicar por que dirigentes públicos se recusam a falar sobre um evento promovido pela própria secretaria.

A impressão deixada é a de que o diálogo só está disponível para quem chega com elogios. Uma espécie de entrevista com requisito prévio: antes de ligar a câmera, apresentar atestado de admiração.

Dirigentes públicos precisam compreender que a secretaria não lhes pertence. A função que exercem envolve responsabilidades perante a população, inclusive quando surgem perguntas incômodas. A imprensa não perde sua legitimidade ao criticar, e o cidadão não deve depender do bom humor de uma autoridade para receber esclarecimentos.

Ao recusarem a entrevista pelo motivo apresentado, os dirigentes diminuíram a própria atuação e desperdiçaram uma oportunidade de valorizar a FLIB. O acontecimento merecia divulgação; as divergências poderiam ter encontrado resposta.

De uma Secretaria de Educação, espera-se capacidade de escutar, argumentar e conviver com o contraditório. Afinal, seria constrangedor que, depois de tantos discursos sobre a importância da leitura, seus dirigentes só aceitassem ler elogios.









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