O homem chegou à estação antes que a chuva engrossasse. Escolheu um lugar sob os antigos lampiões, pousou a mala junto aos pés e voltou os olhos para os trilhos. De tempos em tempos, ajeitava a aba do chapéu, num gesto que parecia ajudá-lo a suportar a espera.
A água escorria pelas bordas da cobertura. No banco de madeira, algumas gotas atravessavam as frestas e caíam sobre as pedras. Ele conhecia aquele banco. Anos antes, alguém se sentara ali ao seu lado e lhe oferecera um lugar debaixo do mesmo guarda-chuva. Lembrava-se do ombro molhado, da proximidade das mãos, de uma conversa interrompida pelo apito do trem.
Agora havia espaço de sobra.
Dentro da mala, levara poucas roupas. Ao fechar a casa, hesitara diante de uma fotografia e acabara guardando-a entre duas camisas. Ainda podia sentir, na ponta dos dedos, a pequena dobra de um dos cantos. Pensou em retirá-la, mas a chuva alcançava seus sapatos, e ele teve receio de molhar aquele rosto.
Foi então que uma nota de piano pareceu nascer do silêncio. Tão baixa que poderia ser uma gota caindo longe, dentro de uma sala vazia. Outras vieram depois, devagar, encontrando lembranças que ele julgava adormecidas: uma janela aberta pela manhã, o ruído de uma xícara sobre a mesa, uma voz chamando seu nome de outro cômodo.
O violoncelo prolongou a última dessas lembranças. Ele baixou a cabeça. Havia meses em que entrava em casa e ainda esperava ouvir aquela voz.
Ao longe, o trem surgiu na neblina. Primeiro uma sombra, depois as janelas, depois o rumor das rodas, crescendo sobre os trilhos úmidos. O homem fechou a mão em torno da alça da mala. Tinha comprado a passagem, conferido o horário, escolhido uma cidade onde ninguém o conhecia. Mesmo assim, quando os vagões se aproximaram, olhou para trás.
A plataforma estava vazia. A porta da estação permanecia entreaberta, e a luz de dentro desenhava um retângulo pálido no chão molhado.
Por um instante, imaginou que alguém atravessaria aquela porta, apressado, pedindo que esperasse. Quase ouviu os passos.
O trem parou.
Ele ergueu a mala e caminhou até o vagão. No primeiro degrau, demorou-se um pouco, deixando a chuva tocar seu rosto. Depois entrou e procurou um lugar junto à janela.
Quando a estação começou a se afastar, retirou a fotografia de entre as camisas. Pousou-a no colo, protegida pelas duas mãos.
Do lado de fora, os lampiões desapareciam um a um na neblina. Ele acompanhou a última luz até perdê-la de vista. Só então virou a fotografia para a claridade do vagão, como quem acomoda ao seu lado alguém que também faria a viagem.

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