segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Cine Monte Líbano: a poesia escondida que o tempo não apagou

 

A arquitetura recupera a voz



Certas descobertas começam com uma retirada. Sai um revestimento, desfaz-se uma divisória, remove-se uma instalação, e aquilo que parecia apenas parede revela um desenho, uma proporção, um cuidado antigo. No Cine Monte Líbano, o espaço começa a devolver à cidade a beleza que guardou durante décadas.

Assim como o arqueólogo acompanha os vestígios e encontra, a cada camada, novas perguntas e revelações, também nosso olhar vai aprendendo a reconhecer o edifício. À medida que são retirados os elementos acrescentados para o funcionamento de um restaurante-bar, descortinam-se suas dimensões poéticas. A arquitetura recupera a voz.

Um fuste cilíndrico emerge nessa paisagem de redescobertas. Integra, com outros fustes, o corpo do antigo cinema. O olhar sobe por sua superfície e encontra, junto ao teto, uma curva delicada, um gesto de quem pensou que a firmeza também poderia ter graça. Ali, o encontro entre apoio e cobertura recebe um desenho que convida a demorar.

Quantas vezes passamos perto dessas formas sem enxergá-las? Quantas belezas permanecem à espera de que alguma coisa seja afastada para que possam, novamente, existir aos nossos olhos?

Fundado pelo libanês Merhige Hanna Saad em 14 de agosto de 1950, o Cine Monte Líbano pertence à história de Bom Jesus do Itabapoana e à intimidade de seus moradores. Em torno de sua tela, gerações aprenderam a viajar sentadas, a reconhecer no rosto de um personagem alguma inquietação própria, a prolongar pelas ruas as emoções de uma sessão.

Agora, o próprio prédio nos oferece uma cena comovente: a de sua arquitetura reaparecendo. A luz alcança superfícies antes encobertas. As linhas voltam a conversar entre si. Podemos acompanhar com os olhos a intenção de quem concebeu aqueles espaços e compreender que também havia arte no caminho até a tela.

O sentimento visionário do sócio-proprietário da UniFAMESC, Dr. Carlos Henrique Medeiros, dá direção a esse reencontro. Ao expressar o propósito de preservar a história e a cultura e uni-las ao desenvolvimento econômico, ele abre uma possibilidade preciosa para a cidade: fazer com que a memória participe ativamente de seu futuro.

Um edifício histórico preservado pode receber novos passos, gerar encontros, movimentar a vida ao redor. Sua permanência oferece raízes ao crescimento. Quem chegar encontrará um espaço capaz de acolher o presente e de contar, em suas próprias formas, alguma coisa sobre aqueles que vieram antes.

Temos a honra de pertencer ao tempo em que esse resgate começa a ganhar corpo. Podemos testemunhar o instante em que uma curva reaparece, em que uma coluna recupera sua presença, em que a cidade reconhece um fragmento de si.

No meio dos escombros e das marcas dos anos, o Monte Líbano vai sendo novamente lido. Cada detalhe revelado acrescenta uma linha à história que julgávamos conhecer.

E aquele fuste, silencioso, parece guardar a serenidade de quem esperou muito tempo por este momento: o de voltar a ser visto.

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