segunda-feira, 19 de outubro de 2026

Visitar as cicatrizes do passado com ternura

 

Há uma tristeza serena em saber que certos dias não voltarão. Há também uma alegria discreta por termos estado neles




Existem lembranças que visitamos com a ponta dos dedos. Aproximamo-nos devagar, reconhecendo suas bordas, como quem percorre uma cicatriz antiga e encontra, sob a pele, um trecho da própria vida.

Durante muito tempo, evitamos aquele lugar. Uma canção, um nome ou o cheiro de café numa tarde de chuva bastavam para devolver ao peito o peso de uma ausência. Havia coisas que precisávamos guardar no fundo da gaveta para conseguir atravessar o dia.

Até que, numa noite qualquer, um piano começa a tocar.

As notas chegam espaçadas, deixando entre si o silêncio necessário para que alguma coisa desperte. Logo o violino se aproxima, com sua voz de madeira e despedida, e uma porta que julgávamos fechada cede suavemente.

Do outro lado, alguém ainda sorri.

A memória tem dessas delicadezas: conserva um gesto que o tempo não soube levar. Uma mão pousada sobre a mesa. A maneira de pronunciar nosso nome. O pequeno movimento de uma cortina na casa onde fomos felizes. Esquecemos tantas datas, tantos compromissos, tantas palavras necessárias, mas guardamos a luz de uma tarde sobre um rosto.

Escutamos. E percebemos que já conseguimos permanecer ali um pouco mais.

A saudade ainda aperta, mas agora deixa espaço para a gratidão. Podemos recordar a partida e também a chegada; o último abraço e todos os outros, aqueles que recebemos distraídos, sem imaginar que um dia seriam tão preciosos.

Amadurecer é aprender a acolher essa mistura. Há uma tristeza serena em saber que certos dias não voltarão. Há também uma alegria discreta por termos estado neles, por termos aberto a porta, sentado à mesa, amado com os recursos imperfeitos que tínhamos.

O piano continua. O violino sustenta uma nota, e nela parece caber o que deixamos por dizer.

Por um instante, não exigimos nada do passado. Permitimos que exista em nós com suas tardes claras, seus desencontros, suas promessas interrompidas. Olhamos com mais bondade para quem fomos. Naquele tempo, também estávamos aprendendo.

Quando a música termina, a casa recupera seus pequenos ruídos. Um carro passa na rua. A água corre numa torneira distante. A noite segue.

Ficamos mais alguns segundos em silêncio, com a mão repousada sobre uma antiga marca.

E, dessa vez, o primeiro rosto que a lembrança nos traz vem acompanhado de um sorriso.

Nenhum comentário:

Postar um comentário