A noite chega devagar àquela Sicília imaginada dos anos 1940. Primeiro, recolhe o dourado das fachadas; depois, acomoda sua sombra nas ruas de paralelepípedos, atravessa as pontes de pedra e se demora junto à porta de um pequeno café. Lá dentro, alguém pousa uma xícara sobre o balcão. O leve ruído da porcelana precede as primeiras notas de um acordeão.
Há uma tristeza terna naquele instrumento. O fole se abre como o peito de quem tomou coragem para contar uma lembrança e, por um instante, perdeu as palavras. A melodia segue por ele: encontra uma janela fechada, uma carta dobrada dentro de uma gaveta, o vestido de uma mulher que desaparece na esquina.
Ao fundo, um trompete prolonga uma nota rouca. Parece vir de outra rua, talvez de outro tempo. Seu som atravessa a penumbra e deixa sobre as mesas alguma coisa difícil de nomear, uma saudade sem rosto, a impressão de termos chegado tarde a um encontro que ainda nos espera.
É desse tecido de sombras que nasce o encanto do universo noir. O cinema lhe empresta os chapéus, os sobretudo escuros, os passos cujo destino desconhecemos. A música, porém, consegue se aproximar mais: alcança o homem sozinho depois que ele fecha a porta, tira o casaco e permanece alguns minutos sentado, escutando a própria vida.
O violão entra suavemente. Suas cordas têm a intimidade das conversas mantidas em voz baixa quando a casa já dormiu. Cada acorde encontra espaço para soar e desaparecer. Ninguém parece ter pressa de interromper o silêncio.
Do lado de cá da escuta, há um livro aberto, algumas páginas por escrever e o cansaço acumulado de um dia inteiro. A mão repousa sobre o papel. Depois, acompanha o ritmo e arrisca uma frase. Uma lembrança antiga fornece a seguinte. Aos poucos, aquilo que parecia disperso começa a encontrar lugar.
O café esfria ao lado da mesa.
Esse é o pequeno milagre de certas melodias: fazer companhia sem exigir conversa. Podemos ficar quietos diante delas, com nossas inquietações ainda incompletas. O acordeão continua respirando; o trompete se afasta; o violão sustenta a delicadeza daquele instante.
Na rua imaginada, uma chuva fina começa a cair. As pedras ganham brilho, e a luz de um lampião estremece numa poça. O dono do café recolhe duas cadeiras, mas deixa a porta entreaberta. Ainda há alguém terminando uma bebida, alguém que precisa de mais alguns minutos antes de voltar para casa.
Permanecemos também.
Quando a última nota se desfaz, ouvimos de novo os pequenos sons do quarto. A noite está aqui, à janela. Sobre a mesa, a página já não está vazia.
E, durante um breve instante, temos a impressão de que aquele velho café siciliano continua aberto em algum lugar dentro de nós.

Nenhum comentário:
Postar um comentário