Uma amizade pode continuar existindo durante anos dentro de nós, embora o outro já não saiba disso
Nem sempre podemos impedir a tempestade. Há perdas que chegam apesar de todo o nosso zelo
Nesta tarde, fiquei olhando uma pequena planta junto à janela. Havia nela duas folhas novas, ainda claras, quase transparentes. A terra, porém, estava seca. Eu passara por aquele vaso muitas vezes durante a semana, sempre a caminho de alguma urgência. Queria vê-lo florir, mas vinha me esquecendo de regá-lo.
Trouxe um pouco de água e fiquei ali, acompanhando a lenta mudança de cor da terra.
Certas compreensões chegam assim, sem ruído, enquanto fazemos uma coisa pequena.
Lembrei-me das pessoas a quem prometemos telefonar. Das conversas que adiamos porque o dia foi difícil. Dos sonhos guardados numa gaveta, entre papéis que amarelecem, esperando que a vida finalmente nos conceda uma manhã livre. Há sempre uma razão para deixar o cuidado para depois. E o depois, tão disponível em nossa imaginação, às vezes demora demais.
Uma amizade pode continuar existindo durante anos dentro de nós, embora o outro já não saiba disso. Conservamos uma lembrança bonita, sentimos saudade, sorrimos ao ouvir determinado nome. Mas o afeto também precisa atravessar a distância: chegar numa mensagem, sentar-se à mesa, perguntar como foi a noite e ter tempo para escutar a resposta.
Penso nos jardins das casas antigas. Havia quase sempre alguém que conhecia cada canteiro. Sabia onde o sol demorava, qual planta precisava de sombra, qual ramo era necessário amparar depois da chuva. Às vezes, era uma senhora de passos lentos, levando uma lata de água no fim da tarde. Suas mãos faziam aquele trabalho havia tantos anos que a beleza do quintal parecia espontânea.
Só depois de sua ausência se percebia quanto daquele verde dependia de sua presença.
Também carregamos um quintal por dentro. Nele vivem nossas esperanças, o gosto pela música, a vontade de aprender, a ternura que conseguimos oferecer. Em dias difíceis, alguma coisa se ressente. Uma alegria perde a cor. Um desejo se recolhe. Precisamos perceber esses sinais com a mesma atenção com que procuramos uma folha nova entre os ramos.
Nem sempre podemos impedir a tempestade. Há perdas que chegam apesar de todo o nosso zelo. Ainda assim, enquanto houver uma raiz viva, vale a pena aproximar as mãos, afofar a terra, oferecer o cuidado possível.
A planta junto à janela recebeu a água em silêncio. Nenhuma flor se abriu naquele instante. As duas folhas pequenas continuaram voltadas para a luz, e isso me pareceu suficiente.
Antes de sair, deixei o regador perto do vaso.
Depois, procurei no telefone o nome de alguém de quem eu estava sentindo saudade.

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