Por Fernando Azevedo
Não sei se sinto saudade de Bom Jesus do Itabapoana ou da pessoa que fui durante aqueles dias em suas ruas.
Certos lugares guardam uma versão nossa. Basta lembrar uma esquina, uma conversa na praça, uma tarde caindo sobre o Itabapoana, e essa pessoa desperta: tem o nosso rosto, mas parece respirar com mais liberdade.
Assim me acontece quando recordo o ambiente inesquecível da antiga Panificadora Borges ou a emoção de participar da Cantata de Natal do consagrado Grupo Musical Amantes da Arte, conhecido como a Alma Bonjesuense. Por trechos das ruas Tenente José Teixeira e Expedicionário Paulo Moreira, as vozes se espalhavam, envolvendo quem passava, quem chegava, quem permanecia. No meio da música e os rostos queridos, eu também encontrava meu lugar.
Em Bom Jesus, houve dias em que eu podia demorar. O café terminava na xícara, mas a conversa continuava. Alguém passava, chamava pelo nome, puxava uma cadeira. E aquilo que, de longe, poderia parecer um acontecimento pequeno era a própria felicidade acontecendo, sem anúncio.
É disso que sinto falta.
Da voz que eu tinha entre pessoas queridas. Da facilidade com que o riso chegava. De caminhar pela Praça Governador Portela sem sentir que precisava estar em outro lugar. De perceber a chegada da noite pelas luzes que se acendiam nas janelas e desejar que o encontro durasse um pouco mais.
O Itabapoana seguia seu curso enquanto eu, por algumas horas, esquecia as urgências. Havia tanta vida naquele esquecimento: histórias recontadas, lembranças de quem já partiu, planos que nasciam entre uma palavra e outra. A cidade se tornava íntima também pelos silêncios que eu podia compartilhar.
Hoje, ao recordar, procuro distinguir as saudades. Será das ruas? Dos abraços? Da luz daquela tarde? Ou daquele eu que conseguia receber tudo isso sem a preocupação de guardar, sabendo apenas viver?
Não encontro uma resposta inteira. Talvez porque a cidade e a pessoa tenham ficado entrelaçadas. Quem esteve feliz num lugar deixa alguma coisa de si sobre os bancos, junto às portas, no caminho de casa. E leva consigo um pouco daquele chão, que reaparece mesmo quando os passos já vão longe.
Quero voltar. Sei que haverá mudanças, ausências, novas histórias. Também levarei comigo os dias que vivi longe e tudo o que eles fizeram de mim.
Mas imagino que, em algum momento, alguém há de me chamar pelo nome. Vou me virar, reconhecer um rosto, abrir um sorriso.
E, antes mesmo do abraço, uma parte de mim terá chegado em casa.

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