quinta-feira, 15 de outubro de 2026

O menino que ainda canta em mim


 Por Gino Martins Borges Bastos 


 Da esquerda para a direita: Francisco Alves, João César, Gino, Pedro Hildebrando, Roberto Pereira e José Marques, alunos do 1º ano ginasial e integrantes do conjunto musical “Os Magnos”, que estreou na Festa da Primavera do Colégio Rio Branco, em 27 de setembro de 1969.


Olho a fotografia de 27 de setembro de 1969 e procuro minha voz.

Ela não está no papel, naturalmente. Ali estão nossos rostos de meninos, as camisas claras, os instrumentos, aquele instante que alguém teve a felicidade de guardar. Mas basta demorar os olhos sobre a imagem para que o silêncio comece a ganhar ritmo. E lá estou eu, aos onze anos, cantando com Os Magnos.

Éramos alunos do primeiro ano ginasial “A” do Colégio Rio Branco, em Bom Jesus do Itabapoana. Francisco Alves e João César marcavam o ritmo; Pedro Hildebrando se ocupava da bateria; Roberto Pereira, compositor e violonista, e José Marques, violonista, faziam soar as cordas. A mim cabia cantar. Juntos, experimentávamos a alegria de descobrir o que nossas vozes e nossas mãos podiam fazer.

Os Magnos. Hoje, o nome me desperta ternura. Havia nele uma grandeza que talvez só a infância pudesse assumir com tamanha naturalidade. Antes que a vida nos ensinasse a medir as dificuldades, já tínhamos dado nome ao nosso sonho.

Nossa estreia aconteceu em 27 de setembro de 1969, na Festa da Primavera do colégio. Entre os presentes estavam os diretores, meu pai, Dr. Luciano Bastos, e dona Maria do Carmo Baptista de Oliveira. Quando penso nessa data, a primavera parece se estender para dentro da fotografia: alguma coisa começava a florescer também em nós.

Cantamos “Você não serve pra mim”, de Roberto Carlos. Há uma graça sensível em imaginar aquele menino de onze anos emprestando a voz a uma canção de desencontro amoroso. Eu mal começara a conhecer o mundo e já cantava palavras que a vida ainda levaria tempo para me explicar. A música tem dessas generosidades: permite que a gente sinta antes de compreender.

Observo meus companheiros. Cada um atento ao seu instrumento, cada qual oferecendo sua parte àquela pequena aventura. Gostaria de alcançar, por um instante, o que pensávamos naquele dia. A fotografia preservou nossos gestos; os pensamentos ficaram soltos no tempo. Talvez por isso eu volte a ela: para escutar o que ainda pode me dizer.

Hoje, o antigo Colégio Rio Branco abriga o Espaço Cultural Luciano Bastos. Percorrer esse lugar é reencontrar uma parte da minha vida misturada à de tantos outros. Nas salas onde fomos alunos, a memória continua recebendo visitas. O nome de meu pai permanece ligado à casa, e aquela imagem de seis meninos músicos encontra abrigo junto aos vestígios de outras turmas, outras festas, outras esperanças.

Há um afeto particular em saber que Os Magnos pertencem a esse acervo. Nossa estreia passou, mas alguém pode parar diante da fotografia e descobrir que estivemos ali. Que, numa primavera de 1969, aqueles meninos se reuniram para fazer música.

Continuo cantando.

Hoje canto basicamente para mim, ao piano ou ao violão. Deixo que os dedos procurem um acorde, volto a uma melodia, acompanho a voz até onde ela deseja ir. De vez em quando, nasce uma composição. Algumas palavras encontram uma sequência de notas, e eu me demoro nesse encontro, como quem recebe uma visita inesperada.

Nessas horas, o menino da fotografia fica muito perto.

Reconheço nele a vontade que ainda me leva aos instrumentos. Mudaram as mãos, a voz, o repertório; chegaram experiências que aos onze anos eu não poderia imaginar. Mas persiste aquele impulso de cantar, de procurar numa melodia uma expressão para o que sinto.

Penso em Francisco, João César, Pedro Hildebrando, Roberto e José. Naquela imagem, continuamos reunidos. Nenhum de nós terminou de tocar. Minha boca ainda está aberta para a canção, as mãos deles permanecem junto aos instrumentos, e há sempre um compasso por vir.

Então me sento ao piano. Ou tomo o violão nos braços.

Toco devagar, até a voz encontrar seu lugar.

E o menino de onze anos canta comigo.

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