quinta-feira, 15 de outubro de 2026

Uma emocionante homenagem ao Grande Mestre de Xadrez Ljubomir Ljubojević


 O xadrez tem uma poesia própria



Certos homens percorrem o mundo levando consigo o nome de uma cidade. Em cada viagem, em cada encontro, em cada vitória, a terra de origem segue silenciosa na bagagem. Até que um dia a cidade os recebe de volta e encontra uma maneira de dizer: nós também guardamos você.

Ao conceder ao grande mestre Ljubomir Ljubojević o título de cidadão honorário e entregar-lhe suas chaves, Užice escreveu uma dessas páginas em que a gratidão pública ganha a delicadeza de um abraço.

Acostumadas a mover peças sobre o tabuleiro, suas mãos receberam um símbolo de pertencimento. Durante uma vida dedicada ao xadrez, elas conduziram pequenas figuras por caminhos de risco e beleza. Agora, acolhiam as chaves de uma cidade que desejava reconhecer sua trajetória.

O xadrez tem uma poesia própria. Ela nasce entre o que se vê e o que ainda se pressente, na coragem de avançar, na paciência de esperar, na descoberta de uma possibilidade onde tudo parecia encerrado. Diante das sessenta e quatro casas, o enxadrista aprende a conviver com a dúvida e a responder por suas escolhas. A beleza de uma partida depende também dessa entrega: criar sem conhecer inteiramente o que virá.

Ljubojević fez desse território uma parte essencial de sua vida. Seu nome atravessou fronteiras, encontrou adversários, conquistou admiradores. E, enquanto os tabuleiros se sucediam, foi construindo uma obra feita de partidas, uma obra que outros podem revisitar, procurando compreender o instante em que uma ideia ganhou forma.

Na solenidade de Užice, essa longa caminhada encontrou o reconhecimento de uma comunidade. No meio de palavras, aplausos e gestos, a cidade reservou um lugar de honra a quem ajudou a levar seu nome para longe.

É emocionante quando uma cidade se lembra de agradecer. Quando reúne seus habitantes para celebrar alguém cuja dedicação ampliou seus horizontes. Algumas crianças  talvez vejam naquela homenagem a primeira imagem de um futuro possível: um homem, um tabuleiro, uma vida de estudo e imaginação.

As chaves entregues a Ljubomir Ljubojević ficarão como lembrança desse encontro. Poderão repousar numa caixa, numa estante, junto de outras distinções. Mas carregarão a voz de Užice e o calor daquele aplauso.

Depois de tantas partidas, a cidade lhe ofereceu um gesto que dispensa cálculo: abriu os braços.


Ljubomir Ljubojević: uma vida entre o silêncio e a beleza



Antes que uma peça seja movida, existe um instante em que todas as possibilidades parecem respirar juntas. O enxadrista inclina-se sobre o tabuleiro, escuta o que ninguém mais ouve e procura, entre ameaças e promessas, um caminho que ainda não existe. Nesse território de silêncio, Ljubomir Ljubojević escreveu uma longa história.

O jogador sérvio atravessou gerações diante das mesmas sessenta e quatro casas. Ao redor delas, mudaram os rostos, os países, as circunstâncias do mundo. Sobre elas, permaneceu o desafio de encontrar uma resposta própria para cada pergunta feita pelo adversário.

Sua trajetória nas Olimpíadas de Xadrez estende-se de 1972 a 2002, com numerosas participações. Três décadas separam essas duas datas, tempo suficiente para que jovens amadureçam, mestres se despeçam e novos talentos ocupem as mesas. Ljubojević seguiu levando ao encontro das peças a experiência acumulada e a disposição de recomeçar.

Em 1972, conquistou a medalha de ouro individual no terceiro tabuleiro. Podemos imaginar o que uma conquista assim guarda além do brilho: horas de concentração, decisões tomadas sob pressão, a responsabilidade de jogar por uma equipe. Naquele mesmo ano, veio o bronze coletivo. O mérito pessoal encontrou a alegria compartilhada.

Depois chegaram a prata por equipes, em 1974, o bronze coletivo, em 1980, e o bronze individual, em 1982. Cada medalha assinala um resultado; nenhuma consegue conter inteiramente o percurso que a tornou possível. Há partidas que deixam cansaço, outras que permanecem na memória por um único lance. Há também o trabalho discreto de voltar à mesa e oferecer o melhor de si quando a rodada anterior já pertence ao passado.

Essa é uma das lições mais humanas do xadrez. A posição se transforma a cada movimento, e o jogador precisa reconhecer o que mudou. Aquilo que há pouco parecia seguro pode exigir cuidado; uma dificuldade pode revelar uma passagem. É preciso olhar novamente.

Na permanência de Ljubojević ao longo de tantos anos, há algo que emociona quem ama esse jogo: a continuidade de um diálogo. Cada adversário traz uma ideia, cada partida exige uma nova atenção. A experiência ajuda, mas o tabuleiro sempre pede presença.

E existe uma beleza particular nas Olimpíadas. Embora cada enxadrista decida sozinho seus movimentos, ninguém joga apenas por si. Uma vitória pode amparar o companheiro; uma resistência difícil pode preservar a esperança de todos. Entre mesas silenciosas, constrói-se uma forma intensa de solidariedade.

Ao recordar Ljubomir Ljubojević, celebramos as medalhas e essa longa dedicação ao encontro com o outro, mediado por pequenas peças. Sua trajetória nos leva a pensar nas pessoas que envelhecem sem abandonar aquilo que lhes acende a curiosidade.

Encerrada a partida, as peças voltam à caixa. O gesto parece simples, quase doméstico. Mas quem acompanhou uma grande luta sabe: alguma coisa continua sobre a mesa. Uma ideia, uma surpresa, a lembrança de uma coragem.

É nesse lugar da memória que o nome de Ljubojević permanece, junto daqueles que fizeram do tabuleiro uma companhia para a vida inteira.

Stari Grad é uma fortaleza situada perto da cidade de Užice, na região central da Sérvia. Os historiadores acreditam que ela tenha sido construída na segunda metade do século XIV d.C. para controlar a circulação pelas estradas próximas e pela cidade de Užice


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