sábado, 17 de outubro de 2026

Quando a saudade abre a janela

 

Uma boa lembrança é isso: um lugar onde podemos nos sentar ao lado da saudade sem precisar dizer coisa alguma



Certas lembranças chegam sem bater à porta. Um aroma de café atravessa a tarde, uma canção escapa de alguma janela, e de repente estamos outra vez diante de alguém que amamos. A cadeira já não está no mesmo lugar, a casa talvez tenha outros moradores, mas dentro de nós uma voz torna a chamar pelo nosso nome.

É assim que certos instantes sobrevivem: encontram abrigo nos pequenos acontecimentos do dia.

A reflexão sobre a grandeza de uma boa lembrança, apresentada na imagem, convida-nos a pensar nessa delicada resistência do amor. Entre tantas coisas que desejamos conservar, são muitas vezes as mais simples que permanecem: a mão pousada em nosso ombro, o cuidado de quem esperava nossa chegada, uma conversa que se prolongou enquanto a noite descia sobre o quintal.

Na ocasião, nada parecia extraordinário. Havia pratos para recolher, preocupações para o dia seguinte, alguma chuva ameaçando as roupas no varal. Só depois descobrimos quanto de felicidade habitava aquela cena.

A saudade tem esse modo tardio de iluminar.

Quando alguém parte, os primeiros encontros com a memória podem doer. Encontramos uma fotografia e precisamos fechar a gaveta. Ouvimos uma música e o peito se aperta. A ausência ainda ocupa tanto espaço que mal conseguimos enxergar o que ficou.

Com o tempo, às vezes, conseguimos permanecer um pouco mais diante do retrato. Observamos um sorriso, reconhecemos um gesto, recordamos alguma graça. E sorrimos também, com os olhos molhados.

A dor continua ali, mas já permite companhia.

Uma boa lembrança é isso: um lugar onde podemos nos sentar ao lado da saudade sem precisar dizer coisa alguma. Ficamos por alguns minutos. Escutamos o que o coração ainda sabe de cor. Depois nos levantamos para cuidar da vida, levando daquele encontro uma ternura que alcança até os nossos gestos.

Quem recebeu carinho pode oferecê-lo de novo. Quem foi acolhido guarda consigo uma maneira de abrir a porta. Há pessoas cuja presença continua no modo como tratamos os outros, na paciência que aprendemos, na palavra que escolhemos para consolar.

Por isso, convém olhar com mais demora para a vida que acontece agora. Há alguém à mesa. Há uma história sendo contada pela segunda vez. Há uma voz conhecida do outro lado do telefone. Podemos escutar um pouco mais, adiar a despedida por alguns minutos, dizer o afeto enquanto ele ainda pode ser ouvido.

Em alguma tarde do futuro, talvez seja justamente esse instante que venha nos visitar.

E, ao reconhecê-lo, teremos vontade de abrir a janela, deixar entrar a luz e agradecer baixinho por termos estado ali.

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