domingo, 18 de outubro de 2026

França: a distância entre governar e ouvir



O Sena continua passando sob as pontes de Paris. Leva reflexos de janelas, sombras de árvores, a luz que demora a despedir-se das fachadas. Às suas margens, porém, a França parece ter perdido aquela confiança com que os povos atravessam o presente quando ainda conseguem imaginar o amanhã.

Há uma inquietação nas ruas. Ela chega com os estudantes, acompanha os trabalhadores, senta-se à mesa das famílias. Tem o tamanho de uma conta que já não cabe no salário, de uma escola que pede cuidados, de uma promessa pública cujo cumprimento se adia.

A política começa nesses lugares pequenos, muito antes dos discursos.

Começa quando alguém faz as contas diante de uma prateleira. Quando um professor percebe que lhe faltam condições para ensinar. Quando um jovem olha para o futuro e encontra uma porta entreaberta, sem saber se será convidado a entrar.

No Palácio do Eliseu, Emmanuel Macron enfrenta o peso de um poder cuja autoridade se tornou mais difícil de exercer. O Parlamento fragmentado exige acordos; a sociedade impaciente exige respostas. Entre a negociação demorada e a urgência das ruas, o governo vê estreitar-se sua passagem.

Uma das solidões do governante é esta: continuar cercado de assessores e já não reconhecer, nas vozes que o acompanham, o rumor do país.

A França conhece a força das praças. Sua história guarda o som de passos que mudaram instituições, derrubaram certezas e ampliaram direitos. Mas nenhuma memória revolucionária absolve a destruição. Uma escola incendiada perde salas onde alguém aprenderia a ler; uma loja saqueada deixa trabalhadores diante de um futuro interrompido. Também nas ruas, a indignação precisa responder pelo mundo que ajuda a construir.

Ao mesmo tempo, condenar a violência não dispensa o poder de ouvir as reivindicações. A ordem democrática precisa proteger quem trabalha, quem protesta pacificamente e quem volta para casa. Sua autoridade cresce quando a lei encontra coerência na maneira de ser aplicada.

À direita e à esquerda, os adversários de Macron procuram oferecer um destino ao descontentamento. Uns acentuam a promessa de segurança; outros, a reparação das desigualdades. Aproxima-se a sucessão presidencial, e cada acontecimento passa a ser observado também pelas janelas da próxima eleição.

É nesse momento que o cidadão precisa escutar com mais cuidado. Existem promessas que esclarecem caminhos. Outras apenas dão um nome conveniente à nossa raiva.

O desafio francês parece morar na distância entre a praça e o palácio. Uma distância que nenhum carro oficial mede e nenhum mapa registra. Ela aumenta sempre que a população fala e recebe uma fórmula pronta; diminui quando uma decisão pública consegue alcançar a vida cotidiana.

Construir uma maioria será necessário. Reconstruir a confiança exigirá mais: compromissos cumpridos, responsabilidades assumidas, disposição para reconhecer limites.

Anoitece sobre Paris. As luzes começam a desenhar outra cidade na superfície do Sena. Em alguma casa, uma família conversa sobre as despesas do mês. Em algum gabinete, alguém prepara um pronunciamento.

O futuro da França dependerá, em parte, de essas duas conversas voltarem a se encontrar.



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