Pensamos nas árvores das nossas praças. Quantas vezes nos abrigamos debaixo delas sem perguntar quem as plantou?
Nem sempre saberemos o destino do que fazemos. O aluno seguirá caminhos que o professor não conhecerá. Um livro encontrará leitores distantes. Uma árvore crescerá sobre um quintal onde outras vozes chamarão pela hora do almoço
Por um instante, na tranquilidade daquela tarde, o cuidado de uma vida distante continuará chegando até uma criança
O velho abriu uma pequena cova no quintal. Ajoelhou-se com algum esforço, acomodou a muda e trouxe a terra para junto das raízes. Depois, regou devagar, atento à água que desaparecia no chão.
Quem o visse da rua talvez estranhasse: por que plantar uma árvore que levaria tantos anos para crescer?
Ele mesmo já caminhava lentamente. Conhecia o peso das tardes, as ausências à mesa, os limites que o corpo lhe anunciava ao subir os degraus. Ainda assim, todas as manhãs, ia verificar se a terra precisava de água.
Talvez pensasse nos netos. Talvez em alguém que ainda nem tivesse nascido. Ou simplesmente se lembrasse de como era bom encontrar uma sombra no caminho.
Eciste uma forma de amor que aceita trabalhar sem assistir à colheita. Está nas mãos de quem planta, de quem ensina uma criança a ler, de quem salva do abandono uma casa antiga. Gente que entrega ao futuro alguma coisa de que o futuro precisará, embora ainda não saiba pedir.
Pensamos nas árvores das nossas praças. Quantas vezes nos abrigamos debaixo delas sem perguntar quem as plantou? Encostamos uma bicicleta no tronco, esperamos um amigo, descansamos da caminhada. Acima de nós, as folhas se movem. Debaixo dos nossos pés, raízes sustentam aquele pequeno alívio que recebemos com tanta naturalidade.
Houve, porém, um dia em que tudo aquilo coube nas mãos de alguém.
Uma muda frágil. Um pouco de terra. A decisão de cuidar.
Também a memória precisa desses cuidados. Um jornal antigo pode se perder na umidade; uma fotografia pode ficar sem nomes; um prédio pode desaparecer antes que alguém escute as histórias guardadas em suas paredes. Preservar exige tempo, trabalho e uma delicada confiança em quem virá depois.
Nem sempre saberemos o destino do que fazemos. O aluno seguirá caminhos que o professor não conhecerá. Um livro encontrará leitores distantes. Uma árvore crescerá sobre um quintal onde outras vozes chamarão pela hora do almoço.
Essa incerteza acompanha o gesto e lhe dá uma beleza comovente: mesmo sem garantias, alguém se dispõe a começar.
Anos depois, uma criança talvez se sente sob aquela copa. Terá corrido muito, estará com calor, abrirá um livro ou ficará apenas olhando os desenhos da luz no chão. Não saberá do velho, da dificuldade dos joelhos, do regador levado a cada manhã.
Mas estará fresca a terra ao seu redor.
E, por um instante, na tranquilidade daquela tarde, o cuidado de uma vida distante continuará chegando até ela.

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